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domingo, 17 de outubro de 2010

Divulgação científica da linguística em tradução

Vou iniciar esta seção do blog dedicada à tradução com a idicação desta resenha que o linguísta Mário Perini fez da seguinte publicação:

STÖRIG, Hans Joachim (2003) A Aventura das Línguas Uma História dos Idiomas do Mundo. Tradução de Clória Paschoal de Camargo, atualizações de Saulo Krieger. São Paulo: Melhoramentos (269 páginas).
A resenha de Mário Perini pode ser encontrada no seguinte link:


Além da relevância do tema da divulgação científica da linguística, muito bem abordado e criticado pelo autor da resenha, o tema da tradução também é do interesse deste blog (meta-teoria da tradução e pragmática da tradução são duas dentre as questões de interesse). Contudo, esta questão (a tradução) ficou de fora das considerações do resenhista. Curiosamente, ele aponta problemas na elaboração da publicação que podem, quase certo que sejam, relativas à problemas de tradução. Não vou entrar em detalhes agora, prometo para um post seguinte entrar nestes detalhes. Por enquanto indico apenas a leitura do texto da resenha e sugiro a reflexão sobre a questão da divulgação científica da linguística (tanto no mundo como no Brasil). O mercado editorial, muito bem fornecido de publicações de divulgação científica, com traduções de obras em áreas como a física e a biologia, estas duas em especial, carece enormemente de publicações na área da linguística e relativas à linguagem. Uma das conclusões de Perini, sobre o livro de Störig, é que este faz um desserviço à divulgação da linguística.

No Brasil, até o momento, além de uma boa parte da produção nacional na área ser de autores especializados que atuam também na universidade, publicações que são bastante usadas nos cursos de graduação em letras, temos apenas traduções do Steven Pinker, que apesar de seus livros imponentes (há ali uma qualidade que é preciso admitir) fornece apenas uma perspectiva bastante parcial sobre a questão da linguagem em relação aos debates contemporâneos a respeito da natureza da linguagem e da forma adequada de tratá-la.

 
Aproveito a oportunidade para mencionar um dos debates suscitados por apenas uma das publicações de Pinker, me refiro ao livro The Language Instinct: How the mind creates language (título em português: O Instinto da Linguagem: Como a mente cria a linguagem. Traduzido por Claudia Berliner e publicado pela Martins Fontes em 2004). Refiro-me à publicação de The 'Language Instinct' Debate do linguista Geoffrey Sampson, ainda sem tradução para o português. A tradução deste volume para o português seria uma boa chance de contribuir para a ampliação da divulgação científica da linguística com qualidade e de uma perspectiva dialógica (ver o título do livro do Sampson).

**Informação interessante de última hora:


O atual estado sobre a investigação do papel das controvérsias no desenvolvimento da história e filosofia da linguística

Dei início a este blog com a proposta de incentivar e divulgar meu projeto de doutorado (ver a primeira postagem, do dia 19 fev. 2007, "Controvérsias"). Desde o início, como afirmei naquele post, a investigação se concentrou em torno de pelo menos três áreas de conhecimento: a filosofia da linguística (na forma de uma reflexão meta-teórica), a pragmática (na forma de uma teoria do uso da língua e de um modelo de interpretação) e a teoria das controvérsias (na forma de uma reflexão metodológica e de uma teoria geral da argumentação). Esta última sendo uma proposta de metodologia de interpretação meta-analítica que combina um método de interpretação pragmático-argumentativo enquanto uma perspectiva alternativa à tradição da história e filosofia da ciência, procurando descrever o balance da polarização entre descritivismo e normativismo encontrado na tradição epistemológica da filosofia da ciência. Esta proposta metodológica da teoria das controvérsias, no meu projeto de investigação, se aplica à construção de uma alternativa à filosofia da linguística enquanto uma proposta de programa de investigação forte de análise meta-teórica sobre a teoria e análise linguísticas. Em relação à teoria e análise linguísticas, o balance proporcionado pela teoria das controvérsias se apoia, de maneira mais evidente, na polarização entre descrição e explicação. Mas não se limitando a esta dicotomia, permite ainda a reflexão sobre a polarização entre normativismo e descritivismo, tanto no nível teórico quanto meta-teórico (neste principalmente).

Agora, quase quatro anos mais tarde, com a proposta amadurecida, me encontro  na etapa final de elaboração do manuscrito que será a tese de doutorado. No ano acadêmico de 2007-2008 estive em estágio de doutorado na Universidade de Tel Aviv e pude trabalhar com Marcelo Dascal, o idealizador da teoria das controvérsias nos moldes como apresentei suscintamente e de maneira muito geral acima (ver resumo abaixo para maiores detalhes).

No projeto inicial, após ter decidido trabalhar, a partir de uma sugestão do meu orientador, José Borges Neto, com o período na história da gramática gerativa transformacional conhecido pela polêmica entre as propostas semânticas ao modelo gramatical proposto pela GGT (semântica gerativa vs. semântica interpretativa), eu havia me concentrado sobre a idéia de 'revolução científica' que supostamente a GGT representaria no contexto da história e historiografia sobre o desenvolvimento das teorias linguísticas.

Com o desenvolvimento da investigação,  o foco dos argumentos foi se tornando mais nítido e surgiu a necessidade de delimitar a proposta de análise da polêmica entre a SG e a SI ao conceito de 'estrutura profunda', que se apresenta como central tanto para o debate sobre qual a melhor arquitetura gramatical para a representação do componente semântico, quanto a respeito da natureza deste componente em relação ao funcionamento do modelo gramatical como um todo.

Assim, o projeto assumiu um novo direcionamento e várias questões se tornaram mais nítidas. Por exemplo, o problema de uma proposta de um programa de investigação para a exploração meta-teórica das abordagens linguísticas a partir da teoria da controvérsias. A seguir, apresento o conteúdo atual da investigação na última versão do resumo da tese.


A Controvérsia sobre a Natureza do Componente Semântico e o Conceito de Estrutura Profunda em Gramática Gerativa Transformacional
 ***
The Controversy on the Nature of the Semantic Component and the Concept of Deep Structrure in Transformational Generative Grammar

Debates a respeito de questões polêmicas na ciência constituem um dos motores da mudança e inovação conceitual de teorias científicas e, por conseguinte, um dos elementos no desenvolvimento da história do conhecimento. Estes eventos de mudança podem ser interpretados e compreendidos a partir da análise das práticas argumentativas dos indivíduos envolvidos na atividade científica e que animam estes debates. A atividade científica aqui em questão constitui-se, fundamentalmente, pela elaboração, desenvolvimento e avaliação de teorias que, por sua vez, formam programas de investigação, tradições e tendências de pesquisa[1].
A abordagem analítica utilizada aqui para a identificação e análise destes eventos é a teoria dos debates científicos conhecida por teoria das controvérsias. Esta abordagem se fundamenta em uma tipologia que orienta a interpretação das estratégias argumentativas utilizadas pelos participantes de um debate. As práticas argumentativas implementadas nestes debates são, por sua vez, estruturadas pragmaticamente, sendo que, devido a sua forma de funcionamento, se caracterizam por eventos linguísticos definidos como (quase) dialógicos. A interpretação pragmática da interação comunicativa que estrutura os debates científicos funciona, neste caso, como modelo e instrumento de análise das interações polêmicas concretas entre seus participantes.
Como objetivo específico a ser alcançado destaca-se a elaboração da análise e avaliação crítica da polêmica da semântica gerativa vs. semântica interpretativa, ocorrida no contexto da gramática gerativa transformacional entre os anos 60 e 70. Uma análise nos termos propostos deste contexto possibilita uma interpretação renovada a respeito dos motivos, desenvolvimentos e conclusão desta polêmica, permitindo a reavaliação de seus resultados. O objetivo geral da investigação é o de introduzir o estudo de um tipo específico de discurso, os chamados discursos polêmicos, classe geral dentro da qual se encontram os debates científicos, na atividade de interpretação meta-teórica em linguística a fim de contribuir para o estabelecimento dos rudimentos de um programa de investigação em história e filosofia da linguística.
Dentre as várias tentativas de elaboração de uma abordagem sistemática de estudo a respeito dos fundamentos da mudança teórica e conceitual em linguística, juntamente com a determinação da relevância de seus aspectos históricos, muitas das abordagens meta-analíticas propostas (seja de natureza historiográfica ou metodológica) têm se mostrado ineficientes na resolução de problemas originados a partir de determinados impasses que resultam da polarização de posições metodológicas estritas. A teoria das controvérsias fornece a possibilidade de uma interpretação despolarizadora a respeito destas posturas metodológicas.
Um dos resultados alcançados, ao final do curso da investigação, se manisfesta na forma de um ganho cognitivo complexo envolvendo desde a percepção da necessidade da reflexão meta-teórica até a compreensão de um dos fatores fundamentais na mudança teórica e conceitual em linguística, a saber, a argumentação dialética (nas formas dos discursos polêmicos).
Palavras chave: controvérsias, gramática gerativa transformacional, mudança do conhecimento em linguística, história e filosofia da linguística, componente semântico, estrutura profunda,


[1] Os ‘eventos de mudança’ são reconstruídos, em parte, a partir da interpretação histórica em conjunto com a análise dos usos dos argumentos que caracteriza a metodologia aqui em questão.

sábado, 16 de outubro de 2010

Bas Aarts e a argumentação sintática

Aarts, Bas. English syntax and argumentation. 2ª ed. New York: Palgrave Macmillan, 2008, pp. xvi + 368.

O livro de Bas Aarts, linguista holandês da University College de Londres, apresenta uma parte interessante [Cap. 10 “Syntactic Argumentation”, pp. 171-192] referente aos fundamentos metodológicos da teoria e análise linguísticas (neste caso, sobre o nível sintático) que trata do modo como é elaborada o que o autor chama de “argumentação sintática” (syntactic argumentation) e também do funcionamento do “raciocínio sintático” (syntactic reasoning), que tem o valor de sinônimo da primeira. Em outras palavras, o autor pretende tornar explícitos os aspectos metodológicos na construção de uma hipótese falseável (falsification-hypothesis) durante o processo analítico em sintaxe.

András Kertész, linguista e filósofo da linguística húngaro conhecido pelo seu tratamento meta-teórico em linguística através da análise argumentativa, ao resenhar[1] a terceira edição do livro de Aarts, comenta favoravelmente a abordagem do autor sobre a argumentação sintática afirmando que “… conscious reflection on the technique of syntactic argumentation is a highly effective means to introduce the student to the practice of problem solving in syntax”. É verdadeiro o que afirma Kertész, porém um tanto desprovido de força de persuasão . Em outras palavras, ele está querendo dizer que o conhecimento do funcionamento do racicínio sintático responsável pela construção da argumentação sintática pode contribuir para que o analista em formação tome consciência dos procedimentos analíticos adotados e possa, quando for dele exigido, tomar posição em um processo de decisão. Contudo, apesar de verdadeira esta afirmação, não poderíamos dizer que ela pertence à consciência meta-teórica do analista, mas sim à consciência meta-linguística, isto é, a respeito da linguagem utilizada durante o processo analítico. Tudo isso é, sim, algo positivo e talvez fosse exigir demais que durante o processo analítico o linguista em formação tenha condições de manipular seu conhecimento meta-teórico e utilizá-lo a seu favor durante o processo de análise. Admito que a exigência deste nível de consciência deve ser esperado apenas do linguista experiente, mas até que ele alcance este ponto pode ser vantajoso que tenha consciência de que este é um nível de consciência analítica desejável e para isso, portanto, precisaría conhecê-lo minimamente.

A utilização da hipótese falseável não é um recurso argumentativo do nível meta-teórico, mas sim do nível analítico e sua utilização consciente faz parte da conciência meta-linguística sobre os processos metodológicos de análise linguística. A identificação de sua utilização e a avaliação desta utilização e suas implicações ao apoiar racionalmente e contribuir para a justificativa empírica da construção teórico-analítica é que corresponde a uma reflexão meta-teórica. A conclusão a que chego é que Aarts não está fazendo uma análise meta-teórica da construção argumentativa na atividade de análise linguística (sintática), ele está fazendo uma reconstrução da própria argumentação no processo de análise e utilização do mecanismo de construção de uma hipótese falseável, fazendo não mais do que tornar explícita a utilização meta-linguística neste processo.

[18 nov. 2010 Adendo]: Para os interessados na análise meta-teórica em linguística a partir do ponto de vista da construção dos argumentos teóricos e analíticos, além dos trabalhos de Kertész (mencionado acima) deixo aqui a sugestão de duas referências já tradicionais nesta abordagem, do autor que talvez tenha iniciado este tipo de análise (estou me referindo ao linguísta sul-africano Rudolf P. Botha):

[1] "The Methodological Status of Grammatical Argumentation" (Mouton, 1970). Trata-se de um estudo preliminar (preparação para o estudo seguinte, abaixo) em que o autor estabelece a forma do chamado 'argumento gramatical'.

[2] "The Conduct of Linguistic Inquiry: A systematic introduction to the methodology of generative grammar" (Mouton, 1981). Trata-se do desenvolvimento do conceito de 'argumento gramatical' (apresentado no estudo acima) apresentando-o no contexto de funcionamento da investigação linguística (especificamente da gramática gerativa transformacional).


E aqui: <http://www.springerlink.com/content/b5025259tg035572/> a resenha de [1] por Marcelo Dascal, em 1973, na revista Philosophia. O trabalho também recebeu uma resenha (bem menos aprofundada do que a análise de Dascal) de Georgia M. Green, em 1972, na revista American Anthropologist, aqui: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1525/aa.1972.74.6.02a00900/abstract>.

**Outros trabalhos poderiam ser mencionados aqui, seguindo esta linha de investigação dos fundamentos da construção teórica em linguística. Desde os trabalhos mais formais que procuram enquadrar a investigação linguística em uma lógica da investigação científica, como nos trabalhos de Jaakko Hintikka, até a perspectiva comprometida com os fundamentos da justificação empírica das hipóteses teóricas em linguística. Poderia mencionar, sem intenção de ser exaustivo, os trabalhos do linguísta finlandês Esa Itkonen, do inglês Geoffrey Sampson, do filósofo australiano Michael Devitt e muitos outros que estão procupado com o modo como a prática da teorização em linguística se desenvolve. Este é o assunto que mais me interessa em relação aos estudos linguísticos e que delimita um campo de investigação ao qual eu chamo de filosofia da linguística. Para saber um pouco mais sobre o desenvolvimento deste campo de investigação no Brasil, ver o trabalho do linguista José Borges Neto (UFPR), que tem parte de sua investigação publicada na coletânea "Ensaios de Filosofia da Linguística" (Parábola, 2004).

[1] Ver a seção Book Notice na página eLanguage da Linguistic Society of America (LSA) disponível em < http://www.elanguage.net/blogs/booknotices/?p=1198 >.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Graças aos "inimigos"...

Se não fosse pelos opositores intelectuais, o que seria do pensamento, mais ainda, o que seria do conhecimento? Um opositor (um certo tipo deles, os dialéticos em especial) é aquele que antepõe questões aos nossos argumentos, criando dificuldades à compreensão daquilo que acreditamos estar claro para nós. Ao fazer isso, ele expõe o que existe de mal elaborado e infundado nas nossas crenças,  no mínimo aquilo que é  mal fundamentado e nos obriga a desenvolver melhor a exposição de nossas ideias e crenças se não quisermos ser mal-compreendidos. Richard Dawkins, autor famoso de divulgação científica, eu considero um destes opositores (à distância, no meu caso). Considero ele um inimigo (nada pessoal) intelectual. Mas por que? Pelo simples fato de que para expôr suas crenças, ditas ateístas e anti-religiosas, ele faz uso de uma forma de argumentação fundamentalista muito semelhante à que ele pretende combater. Como ele faz isso? Não irei entrar em detalhes sobre esta questão agora, vou apenas dizer que ao anunciar a racionalidade científica como a solução para todos os males e dúvidas da humanidade ele a transforma no mesmo dogma que pretende combater na religião. Digo tudo isso para apresentar, abaixo, um vídeo produzido pela Fundação Richard Dawkins, em que o filósofo A. C. Crayling argumenta contra o ensino da forma de argumentação conhecida  como 'controvérsia'.



Em uma postagem seguinte farei a discussão sobre o assunto e apresentarei uma definição da idéia e o papel das controvérsias na construção do conhecimento.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ecologia Linguística II

Fora a inflação da produção acadêmica em língua inglesa --a qual temos, geralmente, que enfrentar em relação à qualquer tema, novo ou velho--, uma pequena busca na internet retornou as seguintes publicações em português e em espanhol a respeito da ecologia linguística. Não tenho como avaliar o material, ainda. Os títulos e os links são os seguintes:



"Se a ecolinguística é definida como o estudo das relações da língua com sua ecologia, ainda fica o desafio de articular bem o que é ecologia de uma língua e se seus diferentes componentes se relacionam diretamente com ela. O triângulo interativo que Couto propõe, ou seja, língua, território e população, é, definitivamente, um convite a uma reflexão mais acurada e empiricamente fundamentada, lembrando-nos que, entre outras coisas, tanto população quanto território são internamente estruturados. Nesta nova e importante contribuição à literatura ecolinguística, Hildo do Couto nos fornece um arcabouço para examinar a prática e a evolução linguística no Brasil de uma perspectiva nova e enriquecedora. Ele nos leva a refletir sobre como vários fatores ecológicos moldaram o português, pelo intermédio da população, bem como deram lugar a estruturas e vitalidades diferenciadas nas outras línguas do Brasil." 
(texto divulgado pelo editor. Sumário e Introdução disponíveis no link)

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"Vuit especialistes intervenen, en aquest volum, per descriure processos de naixement i de mort de llengües o de dialectes. L'enfocament és múltiple i variat: si la referència al rossellonès, a l'alguerès o a l'aragonès són mostres de desaparició lingüística, hi ha també les diferències experimentades entre llengües veïnes com el català i el castellà, o la creació de varietats lingüístiques com els pidgins o criolls, que s'exemplifiquen en les formacions del Carib, a més d'altres estudis sobre els dialectes del basc, l'asturià i el jueu-espanyo."
(texto divulgado pelo editor)

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"Ecolingüística é definida como o estudo das relações entre língua e meio ambiente, o que significa que ela toma conceitos da ecologia biológica para construir suas bases epistemológicas. Os dois passos iniciais são, portanto, verificar (1) quais são os conceitos ecológicos mais importantes e (2) quais são seus equivalentes nos estudos da linguagem, ou como são aplicados nela, entre eles, os de ecossistema, diversidade, inter-relações e evolução. A ecolingüística encara os fatos da linguagem em sua dinâmica e em suas inter-relações. Seu objeto já vinha sendo investigado por disciplinas parcelares. Ela não veio substituí-las.Tampouco tem a pretensão de estudar tudo. Praticar ecolingüística é continuar fazendo o que já se fazia antes, na área da linguagem, só que se colocando em uma nova perspectiva, holística, integradora. É uma nova postura frente a vida e ao mundo. Numa época de crescente devastação do meio ambiente, causada pelo aumento brutal da população, cada ser pensante tem obrigação de conscientizar as pessoas, a fim de tentarmos frear o processo, em nosso próprio interesse. A natureza é neutra a esse respeito. Uma maneira de assumir a nova postura é cada lingüista continuar estudando sua árvore, sem esquecer que ela faz parte de uma floresta." (texto divulgado pelo editor


Esse autor brasileiro dos livros sobre ecologia linguística, Hildo Honório do Couto, é professor da UnB. Ele tbm participa desse dossiê da ComCiência sobre linguagens:




Acho curioso como, muitas vezes, temos acesso imediato a certas fontes estrangeiras, principalmente em língua inglesa (aqueles que dominam o mercado editorial mundial das idéias) em detrimento daquelas fontes que são produzidas pelos nossos colegas (sem nenhum xenofobismo pretendido, aqui). Mas tudo isso precisa ser posto em perspectiva. Muitas vezes, a produção interna do conhecimento linguístico, no Brasil, além de mal divulgada, é apenas uma "mastigação" daquelas fontes estrangeiras. Não parece ser o caso desse autor professor da UnB, cuja publicação parece, sem ler mais do que o sumário, bastante original.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O que é a ecolinguística?

Einar Haugen

A 'ecologia linguística', ou simplesmente 'ecolinguística' foi idealizada pelo linguísta estadunidense de origem norueguesa Einar Haugen (1906-1994).  A ecologia linguística para Haugen (segundo Fill & Muhlhausler, 2001 The Ecolinguistics Reader) "...estuda as interrelações entre as línguas tanto em relação à mente humana quanto em relação a comunidades multi-linguísticas" (p. 1). Haugen é autor do livro "The Ecology of Language" (1972), uma coletânea de artigos abrangendo o período de produção do autor entre 1938-1972. Temas como bilingualismo, imigração norueguesa nos Estados Unidos e problemas de contato e política linguística, planejamento e empréstimo linguístico são tratados nos artigos do volume. A ecologia linguística é pensada hoje a partir de uma variada gama de contextos. O Ecolinguístic Reader, por exemplo, organiza 30 anos de investigação sob os títulos: "The Roots of Ecolinguistics"; "Ecology as Metaphor"; "Language and Environment" e "Critical Ecolinguistics". Estão reunidos na coletânea autores como Edward Sapir, George Steiner, Einar Haugen, William Mackey, Harald Weinrich, Roy Harris, Michael Halliday entre outros. O volume funciona como uma referência e um ponto de partida organizado sobre os fundamentos e os direcionamentos da ecologia linguística.

Além deste Reader  uma série de outras publicações estão disponíveis sobre o assunto. Listas de referências sobre os assuntos tratado pela ecologia linguística podem ser econtradas nos seguintes endereços:

É bastante oportuno que esta área da linguística receba  atenção também aqui no Brasil. A ecologia linguística possui o caráter epistemológico de um programa de pesquisa, dentro do qual várias teorias são desenvolvidas concomitantemente. Ela é mais um ramo dos estudos linguísticos a ser considerado por uma filosofia da linguística.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Chomsky vs. Lakoff

Noam Chomsky
Nos dois links abaixo é possível ter uma idéia de uma troca polêmica em um dos debates mais duradouros na história da linguística, o debate da semântica gerativa vs. semântica interpretativa.

http://www.nybooks.com/articles/archives/1973/feb/08/deep-language/#fnr1-367096214

http://www.nybooks.com/articles/archives/1973/jul/19/chomsky-replies/

No primeiro link, com o pretexto de uma resposta a um artigo de John Searle sobre a "revolução chomskiana em linguística" (ver, na mesma publicação, a edição de 29/06/1972), George Lakoff ataca a concepção linguística de Chomsky tentanto colocar em questão o valor da chamada "revolução chomskiana em linguística". O segundo link traz a resposta de Chomsky a Lakoff.

É interessante analisar as estratágias argumentativas dos dois autores. Não pretendo entrar em detalhes aqui, neste momento. Mais adiante postarei passagens de uma análise que fiz do debate John Searle vs. Noam Chomsky como um todo, do qual esta pequena troca entre Chomsky e Lakoff faz parte. O curioso é a constatação de que esta pequena intervenção que parece mal situada, pelo fato de Lakoff merecer uma resposta de Chomsky e pelo fato de Lakoff atacar a Chomsky sob o pretexto de um comentário ao artigo de Searle, não é, na verdade, nada ocasional ou gratuita.
George Lakoff

Esta troca entre Chomsky e Lakoff ocorre no contexto maior do debate sobre o conceito de estrutura profunda que estava em adamento entre o grupo de Chomsky, defensor da versão "interpretativista" de semântica para a gramática gerativa e um grupo de dissidentes, formados principalmente por George Lakoff, James McCawley, Paul Postal e John Ross, que defendiam uma versão chamada "gerativa" de semântica e que pretendia, entre outras coisas, demonstrar a falta de utilidade de um nível de estrutura profunda na arquitetura da estrutura gramatical.