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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Excelente boa notícia para fechar o ano // Very good news at the end of the year

Enquanto a tese não sai..., deixo aqui uma ótima boa notícia: a revista Histoire Épistémologie Langage está disponível on line desde seu primeiro número. Aqui:



The very good news is that the journal Histoire Épistémologie Langage is available on line on the link above.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pouco é melhor que nada?

Como não estou conseguindo me dedicar à atualização deste blog como gostaria, deixo aqui uma mensagem para meditação durante as festas de fim de ano. Afinal, quero acreditar que um pouco é melhor do que nada (em outra oportunidade prometo me deter sobre o valor desta afirmação). Aqui vai a mensagem:

"Methodology, the bread-and-butter of a scientist working in any given field, is usually spinach to those outside".
(Miller, George A., 1971/1967, "Empirical methods in the study of semantics")
Em um outro post apresentarei o resultado da minha própria meditação sobre a mensagem acima.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Livro novo com um pouco de ceticismo

Aqui está a notícia do novo livro de Peter Ludlow "The Philosophy of Generative Linguistics". Confesso que não é sem uma boa dose de ceticismo que recebo a notícia. O anúncio do livro na página da OUP não é muito informativa, apresentando uma caracterísitica muito forte de propaganda do livro, eis aqui:
Peter Ludlow presents the first book on the philosophy of generative linguistics, including both Chomsky's government and binding theory and his minimalist program. Ludlow explains the motivation of the generative framework, describes its basic mechanisms, and then addresses some of the many interesting philosophical questions and puzzles that arise once we adopt the general theoretical approach. He focuses on what he takes to be the most basic philosophical issues about the ontology of linguistics, about the nature of data, about language/world relations, and about best theory criteria. These are of broad philosophical interest, from epistemology to ethics: Ludlow hopes to bring the philosophy of linguistics to a wider philosophical audience and show that we have many shared philosophical questions. Similarly, he aims to set out the philosophical issues in such a way as to engage readers from linguistics, and to encourage interaction between the two disciplines on foundational issues.
"O primeiro livro sobre a filosofia da linguística gerativa" é sem dúvida nenhuma um exagero. Há vários livros sobre o assunto, e estou tentando apresentá-los aqui  neste blog aos poucos, na medida do possível. O índice do volume pode ser um pouco mais informativo do que sua descrição:

Table of Contents

Preface
Acknowledgements
Introduction: The Plan
1. Linguistic Preliminaries
2. The Ontology of Generative Linguistics
3. Linguistic Data and Linguistic Judgments
4. A Role for Normative Rule Governance?
5. Worries about Rules and Representations
6. Referential Semantics for narrow ?-languages?
7. Best Theory Criteria and Methodological Minimalism
Appendix: Interview with Noam Chomsky
Bibliography
E ao final o livro traz uma entrevista com Noam Chomsky. Mais uma! Será que ele ainda tem alguma coisa a dizer sobre a gramática gerativa? Vejamos. ** O título do capítulo 6 permanece um mistério.

Primeiro uso da expressão 'filosofia da linguística'?

É bastante conhecido o livro editado por Jerrold KATZ em 1981 com o título The Philosophy of Linguistics (OUP). Muitos conhecem a expressão 'filosofia da linguística' principalmente a partir deste livro, que é uma coletânea de textos de autores que são considerados ou linguistas, ou filósofos. Nomes como Bloomfield, Harris, Quine, Sapir, Chomsky, Stich, Fodor, Hjelmslev, Soames, Langendoen, Postal e o próprio Katz são os autores que figuram na coletânea. Em outra oportunidade, prometo fazer uma descrição mais detalhada do livro e talvez até algum comentário, quem sabe avaliando a possível proposta de uma filosofia da linguística por parte do organizador do volume. Responder, por exemplo, o que significa 'filosofia da linguística' para Katz e o que ele pretende ao apresentar os textos que apresenta na referida coletânea.

Mas para o momento, gostaria de fazer menção a um outro trabalho (uma tese de doutorado), escrito quase dez anos antes (em 1973) do livro mencionado e que pode ser, talvez, salvo engano, o uso mais antigo da expressão 'filosofia da linguística'. Certamente é o uso mais antigo do termo com o qual já me deparei. Estou falando do trabalho de doutorado de Paul MELLEMA intitulado "Problems in the Philosophy of Linguistics". Fica para um próximo post o comentário sobre este trabalho.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma excelente referência em historiografia linguística

Ketel, Els Elffers-van. The Historiography of Grammatical Concepts: 19th and 20th-century changes in the subject-predicate conception and the problem of their historical reconstruction. Amsterdam/Atlanta: Rodopi, 1991. 357 p.


[Em breve um post com comentários sobre o livro]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A proposta de Jorge Campos para uma Filosofia da Linguística: Uma alternativa para a reflexão meta-teórica da linguística no Brasil?

A reflexão e proposta de Jorge Campos (JC) para uma filosofia da linguística (FL) pode ser abordado em pelo menos quatro artigos d iautor (todos disponíveis na página pessoal do autor):
[1] “Filosofia da Linguística, Filosofia da Ciência e Metateoria das Interfaces” [16 pp.]
[2] “Filosofia da Linguística” [6 pp.]
[3] “Uma Questão de Filosofia da Linguística” [5 pp.]
[4] “Entre o Empírico e o Formal: Uma questão Problemática de Filosofia da Linguística” [5 pp.]

A partir da consideração do texto [1], a perspectiva de JC a respeito da FL pode ser sintetizada pelas seguintes características:
(a). A FL é uma sub-disciplina da filosofia da ciência (FC) (hipótese), sendo que a FC é que deve determinar os tópicos de interesse e a metodologia de investigação a ser utilizada na interpretação metateórica da ciência específica, no caso a linguística.
(b). A FL, assim como a filosofia da física e a filosofia da biologia, não interagem (o suficiente) com as ciências sobre as quais constroem metateorias; os debates entre elas (entre teorias e entre a teoria e meta-teoria) são, em geral, improdutivos;
(c). É preciso que haja unificação teórica em um campo científico para que seja possível uma filosofia da ciência específica sobre aquele campo teórico.

JC propõe, incialmente, uma definição 'fraca' para a FL:
Talvez fosse útil caracterizar a Filosofia da Lingüística como um conjunto de conhecimentos filosóficos, metateóricos e históricos a fundamentar as ciências da linguagem para que se estabelecesse essa tradição. ([1], pg. [8])

'Fraca' no sentido em que o próprio autor tem dúvidas a reséito da importância ou necessidade, ou realidade de sua caracterização. É compreensível. Toda precaução, em casos como este, é bem-vinda: “talvez fosse útil”, o que atribui à sua proposta de uma FL um caráter incerto. Em seguida, ele faz outra afirmação 'fraca' (talvez, mais fraca do que a primeira) em que afirma que além da falta de unidade entre as teorias, os debates entre elas é improdutivo. Esta percepção é fraca porque rejeita completamente o caráter dialético na relação das teorias e consequentemente a importância das controvérsias para o seu desenvolvimento.
A tentativa de uma reorganização metateórica das ciências da linguagem passa pelo levantamento de problemas cruciais sugeridos pela Filosofia da Ciência em geral e por uma tentativa de reavaliar metateoricamente os programas potenciais de investigação. ([1], pg. [8])

Problemas (ou dificuldades) que deveriam ser superados para que pudesse haver uma FL coerente (e unificada) e que definiriam propostas para programas de investigação para a meta-teorização linguística, seriam:
(i). a diversidade de concepções (DC)
(ii). o caráter interdisciplinar indefinido (CII)
(iii). as circunstâncias ricas para universalidade trivial (CRUT)
(iv). a inadequação entre descrição e explanação (IDE)

Para JC, o problema representado em (i), a diversidade de concepções propostas por programas de investigação incompatíveis, impede a elaboração de uma metateoria coerente e unificada. Ele menciona como exemplos destes programas a ‘sintaxe gerativa’, a ‘análise do discurso’, a ‘semântica formal’ e a ‘linguística cognitiva’. Para JC, estes programas propõem princípios e interpretações incompatíveis. Entre princípios sociais, cognitivos ou formais [pg. 9] é preciso haver alguma forma de correlação. Sendo o caráter interdisciplinar que relaciona conceitos subordinados a princípios incompatíveis, nas atuais propostas de programas de investigação, como estes, surge o problema representado em (ii). As propriedades cognitivas, sociais e formais precisam ser subordinadas de modo coerente em um mesmo programa de investigação que deve, por sua vez, responder aos princípios de uma meta-teoria geral (uma FC geral). Um terceiro agravante, representado pelo problema (iii), a dificuldade se produzir ‘generalizações relevantes’, sendo que os universais propostos são, geralmente, demasiadamente restritos. O problema (iv) representa a condição de desajuste entre descrição e explicação (adequação descritiva e adequação explicativa, nos termos da gramática gerativa transformacional [GGT]), mas JC não se limita à dicotomia expressa ao nível de um único programa de investigação, identificando o problema da incompatibilidade entre descrição e explicação entre programas de orientação divergentes, como o representado pelo gerativismo (com seu excesso de aparato descritivo de formalização), de um lado, e pela análise do discurso (com seu construcionismo excessivo), de outro.
            Uma alternativa possível, poderíamos chamar de uma FL pluralista que procurasse ao mesmo tempo ter um caráter geral, concentrando-se sobre problemas que podem ser considerados universais, isto é, comuns e com um certo grau de relevância a todas as teorias propostas, e um caráter particular, sobre teorias campos teóricos específicos que compartilham noções com mais de uma proposta teórica. }{ JC não vê continuidade no desenvolvimento histórico da linguística e concebe os modelos teóricos como essencialmente incomensuráveis. Contudo ele propõe um programa de investigação para o tratamento meta-teórico da linguística que, segundo o autor, supera os problemas (dificuldades) apontados. Sua proposta surge da necessidade de inovação conceitual em um contexto de desenvolvimento interdisciplina. A este programa ele chama de ‘meta-teoria das interfaces’:
Dado esse contexto interdisciplinar, o que se pode desenhar para a ciência da linguagem é uma metateoria de interfaces, compatível com a história da Linguística e praticamente solução rara a compatibilizar a diversidade de modelos e encaminhar a solução dos problemas anteriormente mencionados [ver acima ‘i-iv’]. ([1], pg. [8])

Assim, a compatibilização da multiplicidade teórica estaria sujeita à necessidade de satisfazer a característica geral (a) para uma FL, isto é, a condição de disciplina subordinada aos princípios de uma FC geral. Além disso, a interdisciplinaridade necessária poderia ser implementada a partir de cada um dos elementos representados por cada um dos programas de investigação (que colocam cada um deles, um dos problemas ‘i-iv’) e sintetizados, sob a perspectiva do programa meta-teórico geral das ‘interfaces’, a partir de uma perspectiva unificada e multidimensional, representada ao mesmo tempo por modelos do mesmo objeto em instâncias diferentes, a saber, natural, formal e social [pg. 11].
            Deste modo, o programa de investigação proposto por JC, denominado de ‘meta-teoria das interfaces’ abordaria este objeto unificado sob as seguintes condições [pg. 12]:
- admitindo a pluralidade teórica, incorporar a interdisciplinaridade inerente aos vários programas de investigação sobre a linguagem;
- um realismo metafísico para a condição ontológica da linguagem e, por conseguinte, para o estabeleceimento de sua apreensão cognitiva e sistematização epistêmica. Em outras palavras, o mundo “está lá” e a teoria sobre a língua trata apenas de algo que existe independente dela. Esta abordagem poderia ainda ser indentificada com um certo empirismo de senso comum;
- restringir a incomensurabilidade ao nível teórico mas desobrigá-la ao nível meta-teórico, tornando as teorias de alguma forma compatíveis;
- enfraquecimento da linguística como disciplina autônoma, diminuindo seu poder explicativo em relação às outras disciplinas com as quais ela interage;
- controlar a proliferação das interfaces através de um compromisso de limitação da construção de objetos teóricos interdisciplinares;
- incentivar o desenvolvimento das relações intradisciplinares em que teorias específicas é que definem as relações de interface interna.

***
Os textos [2] e [3] abordam praticamente as mesmas questões, com pequenos acrescimos, porém sob a mesma perspectiva. Neles JC procura, primeiro situar a discussão sobre as formas que o realismo assume em FC situando em relação à discussão sobre a natureza do objeto em linguística, ou seja, a linguagem. Para tanto ele repete a mesma seleção de propostas de investigação sobre a linguagem que havia selecionado na sua proposta de uma programa de investigação meta-teórico para a linguística no texto [1]: Saussure, Bloomfield e Chomsky, e Montague. É de se esperar que o autor vá alinhar cada uma das propostas representadas por estes autores com sua delimitação das interfaces interdisciplinares da linguística: social, natural e formal, respectivamente.
            A partir deste quadro, o autor procura estabelecer um quadro de referência funcional em que a linguística poderia servir de campo de conhecimento fundamental para uma meta-teoria geral da ciência. As funções que autor identifica como tradicionalmente relacionadas à linguagem, são: de conhecer, de pensar e de comunicar.
            Nestes dois textos, praticamente iguais, JC trata da linguagem enquanto função do pensamento, cujo estudo para ele tem sido negligenciado na abordagem que os programas de investigação identificados acima realizam. No que diz respeito à sua proposta de uma programa de investigação meta-teórico para a linguística, as diretrizes continuam basicamente as mesmas, em relação ao texto [1].

***
Já no texto [4], o autor aborda uma relação problemática na teoria linguística e que, consequentemente assim tbm se constitui para a reflexão meta-teórica. Como é perceptível já no título do artigo, trata-se da relação entre a condição daquilo que é definido e entendido como ‘empírico’, de um lado, e como ‘formal’, de outro, para a teoria e análise linguísticas. Depois de uma série de "suposições", que assumem a forma de postulados (A, B, C) [para mim B parece anterior a A]), questões (D), e um mixto de hipóteses e pressupostos (E, F) A proposta então se resume à investigação sobre a natureza do objeto proposto, a metodologia para abordar estes objeto e a reflexão (crítica, avaliação, interpretação) de suas relações interdisciplinares (efetivas e potenciais). Para ele, a consequência é que para uma FL a questão fundamental seria a "consideração sobre a natureza do objeto e da metodologia da teoria da linguagem, tópicos que deveriam constituir o que se poderia chamar de Filosofia da Lingüística" (p. 1). 

[Continua...]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Uma controvérsia em Estudos da Tradução?


[I]
O texto de W. Benjamin sobre tradução, "A Tarefa do Tradutor", é tido em alta conta pela intelligentsia acadêmica na área da tradução. A tradução de Susana Kampff Lages sobre o texto de Benjamin acrescenta um outro termo ao título, combinando 'tarefa' com 'renúncia'. Não sei bem ao certo, pois não consigo perceber, por que motivo a tradutora traduziu o título do artigo por "A Tarefa-Renúncia do Tradutor". Talvez ela tenha feito isso pelo fato do termo 'Aufgabe', no original em alemão, permitir essa variação e a tradutora pretendeu ampliar o significado do termo 'tarefa' na sua versão para o português. E esta ideia parece se confirmar, pois uma olhada rapida em um dicionário on line traz o seguinte conjunto de termos, nesta sequência, para o termo em alemão: tarefa, trabalho, missão, função, renúncia, abandono. Eu gostaria que fosse possível incluir mais um termo nesta lista: 'compromisso'. Isso talvez não seja possível, aproximar 'compromisso' de 'Aufgabe'. Não tenho condições de, neste momento, ler toda a (nem mesmo parte da) crítica e todas as (nem mesmo algumas das) traduções que poderia ler do texto de Benjamin para verificar se o que ele argumenta em seu artigo permitiria, ou não, a aproximação de 'Aufgabe' a 'compromisso'.

Sei que circula no senso-comum acadêmico (já ouvi isso de mais de uma pessoa) a avaliação de que, na história e historiografia (dos estudos) da tradução,  o mencionado artigo de Benjamin está (em importância e relevância [?] para a reflexão sobre a tradução) para o século xx, assim como o famoso texto de Schleiermacher, "Sobre os diferentes métodos de tradução", está para o século XIX. Confesso que me escapa qual seria o valor que esta frase de efeito, proferida por uma autoridade (não sei dizer, agora, exatamente quem foi o autor, Berman [?]) na área da tradução, poderia ter em termos epistemológicos para o conhecimento positivo sobre o fenômeno da tradução. Epistemologicamente ela não me parece ter muito valor. O que consigo discernir desta frase é que apesar dela ter sido aparentemente elaborada na forma de uma razão em que 'b' (Benjamin) está para 'v' (séc. [v]inte), assim como 's' (Schleiermacher) está para 'd' (séc. [d]ezenove), o que ela de fato realiza é um argumento na forma 'ad verecundiam' (ou, argumento de autoridade). Isto quer dizer que o valor (ou significado) da afirmação se fundamenta na autoridade de seu autor (e neste caso temos pelo menos três importantes autoridades em questão). Um argumento de autoridade possui geralmente a forma: o autor 'A' afirma 'B'; 'A' está sujeito a ser reconhecido como autoridade em um determinado campo do conhecimento; portanto 'B' é verdade (ou tem grande chance de ser). Tradicionalmente, este tipo de argumento é classificado como uma falácia lógica, porém prefiro não chamá-lo assim, para não incorrer no sentido que a lógica dialética tradicional atribui às falácias, isto é, o sentido de 'erro lógico'. Prefiro um outro sentido atribuído, contemporaneamente, às falácias. Refiro-me ao sentido da lógica informal e de várias correntes da teoria da argumentação em que uma falácia, mais do que ser um erro lógico (uma função puramente formal) possui a função de persuadir (e nisto encontra seu valor). Quem de nós não nos deixaríamos levar por algum argumento de autoridade, principalmente quando ele parece confirmar uma crença que queremos manter?

E aqui volto à ideia de 'comprometimento' que mencionei acima. É inegável o valor das ideias de Benjamin e de Schleiermacher para a reflexão sobre a tradução, e acredito que também o seja o de Berman. Mas o fato de Berman (uma autoridade) enunciar uma frase de efeito sobre outras autoridades, não torna o seu argumento verdadeiro e, curiosamente, também não o torna inválido. No entanto, isto não significa que seja preciso acreditar que o que todas estas autoridades afirmam possuem algum valor de verdade instrínseco que é preciso encontrar, seja onde for, estejamos quando e onde estivermos (isto é, universal). É neste ponto que eu gostaria de chegar trazendo junto comigo a ideia de 'compromisso'. Qual é o compromisso do tradutor? São vários os compromissos do tradutor: éticos, morais (incluindo os de autoridade), textuais, linguísticos, teóricos, racionais, epistêmicos, cognitivos, sociológicos, estéticos, etc. Dentre estes encontra-se o compromisso de suspender a adesão a uma crença (um valor, um significado) quando ela parece não refletir uma  hipótese plausível o suficiente a respeito de um determinado acontecimento, fato ou objeto no mundo. A afirmação de Berman (tomada assim, descontextualizadamente), apesar de válida, é um exemplo que nos obriga a suspender a adesão a sua plausibilidade. É fácil de perceber isso: admitindo ou negando sua plausibilidade, pouco se modifica o efeito persuasivo que ela possui. Por isso a chamei de frase de efeito. Ela pode ser verdadeira e válida, porém, pode também ser falseada, e aí se encontra sua força.

[II]
E como poderia ser falseado este argumento de Berman? Por exemplo, ou questionando a relação que ele parece querer estabelecer entre o pensamento de Benjamin com o de Schleiermacher; ou, então, questionando a proporção incial que afirma a importância do artigo de Benjamin para o século XX. As duas linhas de questionamento estão relacionadas, farei a tentativa de mostrar como poderiam ser questionadas conjuntamente. Sem entrar nos méritos e no conteúdo dos dois textos dos dois autores é praticamente impossível de se apresentar uma análise minimamente plausível. No entanto, irei arriscar não fazer isso e limitando a uma passagem muito pequena do texto de Benjamin.
[...]

[**Continua ]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um pouco de humor faz bem ao raciocínio

O Reverendo Dr. Sintaxe
Uma perspectiva humorística sobre os assuntos que precisam ser tratados de maneira racional também contribui para o desenvolvimento da reflexão. Aqui uma imagem do personagem Dr. Syntax, criado pelo cartoonista inglês Thomas Rowlandson (1756-1827). A imagem foi retirada do site Postaprint no seguinte endereço:


Mas o leitor, se este blog já tiver conseguido angariar algum, deverá estar se perguntando, assim como eu também estou, o que significa este personagem com este nome curioso de Dr. Syntax? A resposta eu ainda não consegui encontrar, mas o que acharia o possível leitor?

Algumas coisas vêm à cabeça, porém as perguntas são insistentes, como este nome curioso, por que, afinal?\Alguma descrição das publicações em que o personagem aparece pode ser informativa.

O Dr. Sintaxe aparece em três volumes ilustrados pelo cartoonista T. Rowlandson: "Dr. Syntax in Search of the Picturesque", "The Second Tour of Dr. Syntax: In Search of Consolation" e "The Third Tour of Dr. Syntax: In search of a wife". Os livros com as aventuras de Syntax eram escritos por um certo William Coombe, em versos, na forma de poemas longos. O Dr. passa, em suas aventuras, por situações pitorescas. De vez em quando postarei algumas das imagens ilustrativas das aventuras de Syntax aqui no blog, principalmente aquelas que considero relevantes, de alguma forma, para o nosso interesse aqui.

Os textos de Coombe não estão disponíveis no mesmo site em que se encontram as ilustrações do Dr. Syntax por Rowlandson. No entanto, as ilustrações por si apresentam uma idéia  da sequência de eventos pelos quais Syntax passou em suas aventuras.

Syntax é sem dúvida uma espécie de erudito atrapalhado com suas atividades intelectuais e mal adaptado às tarefas e relações ordinárias, é o que mostram as ilustrações.

Quem lê o Language Log de vez em quando já deve ter topado com um post de Mark Liberman de 2008 em que ele anuncia a descoberta do Dr. Syntax. No Post Liberman faz uma série de citações e parece ter encontrado uma resposta à existência deste pitoresco personagem, não sem antes se indagar impressionado com a existência do atrapalhado Syntax. O interessante no post de Liberman é que além de identificar o indivíduo a quem possivelmente o personagem Syntax se refere na sátira de Rowland, ele também situa a sátira na história das idéias linguísticas.


domingo, 17 de outubro de 2010

Divulgação científica da linguística em tradução

Vou iniciar esta seção do blog dedicada à tradução com a idicação desta resenha que o linguísta Mário Perini fez da seguinte publicação:

STÖRIG, Hans Joachim (2003) A Aventura das Línguas Uma História dos Idiomas do Mundo. Tradução de Clória Paschoal de Camargo, atualizações de Saulo Krieger. São Paulo: Melhoramentos (269 páginas).
A resenha de Mário Perini pode ser encontrada no seguinte link:


Além da relevância do tema da divulgação científica da linguística, muito bem abordado e criticado pelo autor da resenha, o tema da tradução também é do interesse deste blog (meta-teoria da tradução e pragmática da tradução são duas dentre as questões de interesse). Contudo, esta questão (a tradução) ficou de fora das considerações do resenhista. Curiosamente, ele aponta problemas na elaboração da publicação que podem, quase certo que sejam, relativas à problemas de tradução. Não vou entrar em detalhes agora, prometo para um post seguinte entrar nestes detalhes. Por enquanto indico apenas a leitura do texto da resenha e sugiro a reflexão sobre a questão da divulgação científica da linguística (tanto no mundo como no Brasil). O mercado editorial, muito bem fornecido de publicações de divulgação científica, com traduções de obras em áreas como a física e a biologia, estas duas em especial, carece enormemente de publicações na área da linguística e relativas à linguagem. Uma das conclusões de Perini, sobre o livro de Störig, é que este faz um desserviço à divulgação da linguística.

No Brasil, até o momento, além de uma boa parte da produção nacional na área ser de autores especializados que atuam também na universidade, publicações que são bastante usadas nos cursos de graduação em letras, temos apenas traduções do Steven Pinker, que apesar de seus livros imponentes (há ali uma qualidade que é preciso admitir) fornece apenas uma perspectiva bastante parcial sobre a questão da linguagem em relação aos debates contemporâneos a respeito da natureza da linguagem e da forma adequada de tratá-la.

 
Aproveito a oportunidade para mencionar um dos debates suscitados por apenas uma das publicações de Pinker, me refiro ao livro The Language Instinct: How the mind creates language (título em português: O Instinto da Linguagem: Como a mente cria a linguagem. Traduzido por Claudia Berliner e publicado pela Martins Fontes em 2004). Refiro-me à publicação de The 'Language Instinct' Debate do linguista Geoffrey Sampson, ainda sem tradução para o português. A tradução deste volume para o português seria uma boa chance de contribuir para a ampliação da divulgação científica da linguística com qualidade e de uma perspectiva dialógica (ver o título do livro do Sampson).

**Informação interessante de última hora:


O atual estado sobre a investigação do papel das controvérsias no desenvolvimento da história e filosofia da linguística

Dei início a este blog com a proposta de incentivar e divulgar meu projeto de doutorado (ver a primeira postagem, do dia 19 fev. 2007, "Controvérsias"). Desde o início, como afirmei naquele post, a investigação se concentrou em torno de pelo menos três áreas de conhecimento: a filosofia da linguística (na forma de uma reflexão meta-teórica), a pragmática (na forma de uma teoria do uso da língua e de um modelo de interpretação) e a teoria das controvérsias (na forma de uma reflexão metodológica e de uma teoria geral da argumentação). Esta última sendo uma proposta de metodologia de interpretação meta-analítica que combina um método de interpretação pragmático-argumentativo enquanto uma perspectiva alternativa à tradição da história e filosofia da ciência, procurando descrever o balance da polarização entre descritivismo e normativismo encontrado na tradição epistemológica da filosofia da ciência. Esta proposta metodológica da teoria das controvérsias, no meu projeto de investigação, se aplica à construção de uma alternativa à filosofia da linguística enquanto uma proposta de programa de investigação forte de análise meta-teórica sobre a teoria e análise linguísticas. Em relação à teoria e análise linguísticas, o balance proporcionado pela teoria das controvérsias se apoia, de maneira mais evidente, na polarização entre descrição e explicação. Mas não se limitando a esta dicotomia, permite ainda a reflexão sobre a polarização entre normativismo e descritivismo, tanto no nível teórico quanto meta-teórico (neste principalmente).

Agora, quase quatro anos mais tarde, com a proposta amadurecida, me encontro  na etapa final de elaboração do manuscrito que será a tese de doutorado. No ano acadêmico de 2007-2008 estive em estágio de doutorado na Universidade de Tel Aviv e pude trabalhar com Marcelo Dascal, o idealizador da teoria das controvérsias nos moldes como apresentei suscintamente e de maneira muito geral acima (ver resumo abaixo para maiores detalhes).

No projeto inicial, após ter decidido trabalhar, a partir de uma sugestão do meu orientador, José Borges Neto, com o período na história da gramática gerativa transformacional conhecido pela polêmica entre as propostas semânticas ao modelo gramatical proposto pela GGT (semântica gerativa vs. semântica interpretativa), eu havia me concentrado sobre a idéia de 'revolução científica' que supostamente a GGT representaria no contexto da história e historiografia sobre o desenvolvimento das teorias linguísticas.

Com o desenvolvimento da investigação,  o foco dos argumentos foi se tornando mais nítido e surgiu a necessidade de delimitar a proposta de análise da polêmica entre a SG e a SI ao conceito de 'estrutura profunda', que se apresenta como central tanto para o debate sobre qual a melhor arquitetura gramatical para a representação do componente semântico, quanto a respeito da natureza deste componente em relação ao funcionamento do modelo gramatical como um todo.

Assim, o projeto assumiu um novo direcionamento e várias questões se tornaram mais nítidas. Por exemplo, o problema de uma proposta de um programa de investigação para a exploração meta-teórica das abordagens linguísticas a partir da teoria da controvérsias. A seguir, apresento o conteúdo atual da investigação na última versão do resumo da tese.


A Controvérsia sobre a Natureza do Componente Semântico e o Conceito de Estrutura Profunda em Gramática Gerativa Transformacional
 ***
The Controversy on the Nature of the Semantic Component and the Concept of Deep Structrure in Transformational Generative Grammar

Debates a respeito de questões polêmicas na ciência constituem um dos motores da mudança e inovação conceitual de teorias científicas e, por conseguinte, um dos elementos no desenvolvimento da história do conhecimento. Estes eventos de mudança podem ser interpretados e compreendidos a partir da análise das práticas argumentativas dos indivíduos envolvidos na atividade científica e que animam estes debates. A atividade científica aqui em questão constitui-se, fundamentalmente, pela elaboração, desenvolvimento e avaliação de teorias que, por sua vez, formam programas de investigação, tradições e tendências de pesquisa[1].
A abordagem analítica utilizada aqui para a identificação e análise destes eventos é a teoria dos debates científicos conhecida por teoria das controvérsias. Esta abordagem se fundamenta em uma tipologia que orienta a interpretação das estratégias argumentativas utilizadas pelos participantes de um debate. As práticas argumentativas implementadas nestes debates são, por sua vez, estruturadas pragmaticamente, sendo que, devido a sua forma de funcionamento, se caracterizam por eventos linguísticos definidos como (quase) dialógicos. A interpretação pragmática da interação comunicativa que estrutura os debates científicos funciona, neste caso, como modelo e instrumento de análise das interações polêmicas concretas entre seus participantes.
Como objetivo específico a ser alcançado destaca-se a elaboração da análise e avaliação crítica da polêmica da semântica gerativa vs. semântica interpretativa, ocorrida no contexto da gramática gerativa transformacional entre os anos 60 e 70. Uma análise nos termos propostos deste contexto possibilita uma interpretação renovada a respeito dos motivos, desenvolvimentos e conclusão desta polêmica, permitindo a reavaliação de seus resultados. O objetivo geral da investigação é o de introduzir o estudo de um tipo específico de discurso, os chamados discursos polêmicos, classe geral dentro da qual se encontram os debates científicos, na atividade de interpretação meta-teórica em linguística a fim de contribuir para o estabelecimento dos rudimentos de um programa de investigação em história e filosofia da linguística.
Dentre as várias tentativas de elaboração de uma abordagem sistemática de estudo a respeito dos fundamentos da mudança teórica e conceitual em linguística, juntamente com a determinação da relevância de seus aspectos históricos, muitas das abordagens meta-analíticas propostas (seja de natureza historiográfica ou metodológica) têm se mostrado ineficientes na resolução de problemas originados a partir de determinados impasses que resultam da polarização de posições metodológicas estritas. A teoria das controvérsias fornece a possibilidade de uma interpretação despolarizadora a respeito destas posturas metodológicas.
Um dos resultados alcançados, ao final do curso da investigação, se manisfesta na forma de um ganho cognitivo complexo envolvendo desde a percepção da necessidade da reflexão meta-teórica até a compreensão de um dos fatores fundamentais na mudança teórica e conceitual em linguística, a saber, a argumentação dialética (nas formas dos discursos polêmicos).
Palavras chave: controvérsias, gramática gerativa transformacional, mudança do conhecimento em linguística, história e filosofia da linguística, componente semântico, estrutura profunda,


[1] Os ‘eventos de mudança’ são reconstruídos, em parte, a partir da interpretação histórica em conjunto com a análise dos usos dos argumentos que caracteriza a metodologia aqui em questão.

sábado, 16 de outubro de 2010

Bas Aarts e a argumentação sintática

Aarts, Bas. English syntax and argumentation. 2ª ed. New York: Palgrave Macmillan, 2008, pp. xvi + 368.

O livro de Bas Aarts, linguista holandês da University College de Londres, apresenta uma parte interessante [Cap. 10 “Syntactic Argumentation”, pp. 171-192] referente aos fundamentos metodológicos da teoria e análise linguísticas (neste caso, sobre o nível sintático) que trata do modo como é elaborada o que o autor chama de “argumentação sintática” (syntactic argumentation) e também do funcionamento do “raciocínio sintático” (syntactic reasoning), que tem o valor de sinônimo da primeira. Em outras palavras, o autor pretende tornar explícitos os aspectos metodológicos na construção de uma hipótese falseável (falsification-hypothesis) durante o processo analítico em sintaxe.

András Kertész, linguista e filósofo da linguística húngaro conhecido pelo seu tratamento meta-teórico em linguística através da análise argumentativa, ao resenhar[1] a terceira edição do livro de Aarts, comenta favoravelmente a abordagem do autor sobre a argumentação sintática afirmando que “… conscious reflection on the technique of syntactic argumentation is a highly effective means to introduce the student to the practice of problem solving in syntax”. É verdadeiro o que afirma Kertész, porém um tanto desprovido de força de persuasão . Em outras palavras, ele está querendo dizer que o conhecimento do funcionamento do racicínio sintático responsável pela construção da argumentação sintática pode contribuir para que o analista em formação tome consciência dos procedimentos analíticos adotados e possa, quando for dele exigido, tomar posição em um processo de decisão. Contudo, apesar de verdadeira esta afirmação, não poderíamos dizer que ela pertence à consciência meta-teórica do analista, mas sim à consciência meta-linguística, isto é, a respeito da linguagem utilizada durante o processo analítico. Tudo isso é, sim, algo positivo e talvez fosse exigir demais que durante o processo analítico o linguista em formação tenha condições de manipular seu conhecimento meta-teórico e utilizá-lo a seu favor durante o processo de análise. Admito que a exigência deste nível de consciência deve ser esperado apenas do linguista experiente, mas até que ele alcance este ponto pode ser vantajoso que tenha consciência de que este é um nível de consciência analítica desejável e para isso, portanto, precisaría conhecê-lo minimamente.

A utilização da hipótese falseável não é um recurso argumentativo do nível meta-teórico, mas sim do nível analítico e sua utilização consciente faz parte da conciência meta-linguística sobre os processos metodológicos de análise linguística. A identificação de sua utilização e a avaliação desta utilização e suas implicações ao apoiar racionalmente e contribuir para a justificativa empírica da construção teórico-analítica é que corresponde a uma reflexão meta-teórica. A conclusão a que chego é que Aarts não está fazendo uma análise meta-teórica da construção argumentativa na atividade de análise linguística (sintática), ele está fazendo uma reconstrução da própria argumentação no processo de análise e utilização do mecanismo de construção de uma hipótese falseável, fazendo não mais do que tornar explícita a utilização meta-linguística neste processo.

[18 nov. 2010 Adendo]: Para os interessados na análise meta-teórica em linguística a partir do ponto de vista da construção dos argumentos teóricos e analíticos, além dos trabalhos de Kertész (mencionado acima) deixo aqui a sugestão de duas referências já tradicionais nesta abordagem, do autor que talvez tenha iniciado este tipo de análise (estou me referindo ao linguísta sul-africano Rudolf P. Botha):

[1] "The Methodological Status of Grammatical Argumentation" (Mouton, 1970). Trata-se de um estudo preliminar (preparação para o estudo seguinte, abaixo) em que o autor estabelece a forma do chamado 'argumento gramatical'.

[2] "The Conduct of Linguistic Inquiry: A systematic introduction to the methodology of generative grammar" (Mouton, 1981). Trata-se do desenvolvimento do conceito de 'argumento gramatical' (apresentado no estudo acima) apresentando-o no contexto de funcionamento da investigação linguística (especificamente da gramática gerativa transformacional).


E aqui: <http://www.springerlink.com/content/b5025259tg035572/> a resenha de [1] por Marcelo Dascal, em 1973, na revista Philosophia. O trabalho também recebeu uma resenha (bem menos aprofundada do que a análise de Dascal) de Georgia M. Green, em 1972, na revista American Anthropologist, aqui: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1525/aa.1972.74.6.02a00900/abstract>.

**Outros trabalhos poderiam ser mencionados aqui, seguindo esta linha de investigação dos fundamentos da construção teórica em linguística. Desde os trabalhos mais formais que procuram enquadrar a investigação linguística em uma lógica da investigação científica, como nos trabalhos de Jaakko Hintikka, até a perspectiva comprometida com os fundamentos da justificação empírica das hipóteses teóricas em linguística. Poderia mencionar, sem intenção de ser exaustivo, os trabalhos do linguísta finlandês Esa Itkonen, do inglês Geoffrey Sampson, do filósofo australiano Michael Devitt e muitos outros que estão procupado com o modo como a prática da teorização em linguística se desenvolve. Este é o assunto que mais me interessa em relação aos estudos linguísticos e que delimita um campo de investigação ao qual eu chamo de filosofia da linguística. Para saber um pouco mais sobre o desenvolvimento deste campo de investigação no Brasil, ver o trabalho do linguista José Borges Neto (UFPR), que tem parte de sua investigação publicada na coletânea "Ensaios de Filosofia da Linguística" (Parábola, 2004).

[1] Ver a seção Book Notice na página eLanguage da Linguistic Society of America (LSA) disponível em < http://www.elanguage.net/blogs/booknotices/?p=1198 >.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Graças aos "inimigos"...

Se não fosse pelos opositores intelectuais, o que seria do pensamento, mais ainda, o que seria do conhecimento? Um opositor (um certo tipo deles, os dialéticos em especial) é aquele que antepõe questões aos nossos argumentos, criando dificuldades à compreensão daquilo que acreditamos estar claro para nós. Ao fazer isso, ele expõe o que existe de mal elaborado e infundado nas nossas crenças,  no mínimo aquilo que é  mal fundamentado e nos obriga a desenvolver melhor a exposição de nossas ideias e crenças se não quisermos ser mal-compreendidos. Richard Dawkins, autor famoso de divulgação científica, eu considero um destes opositores (à distância, no meu caso). Considero ele um inimigo (nada pessoal) intelectual. Mas por que? Pelo simples fato de que para expôr suas crenças, ditas ateístas e anti-religiosas, ele faz uso de uma forma de argumentação fundamentalista muito semelhante à que ele pretende combater. Como ele faz isso? Não irei entrar em detalhes sobre esta questão agora, vou apenas dizer que ao anunciar a racionalidade científica como a solução para todos os males e dúvidas da humanidade ele a transforma no mesmo dogma que pretende combater na religião. Digo tudo isso para apresentar, abaixo, um vídeo produzido pela Fundação Richard Dawkins, em que o filósofo A. C. Crayling argumenta contra o ensino da forma de argumentação conhecida  como 'controvérsia'.



Em uma postagem seguinte farei a discussão sobre o assunto e apresentarei uma definição da idéia e o papel das controvérsias na construção do conhecimento.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ecologia Linguística II

Fora a inflação da produção acadêmica em língua inglesa --a qual temos, geralmente, que enfrentar em relação à qualquer tema, novo ou velho--, uma pequena busca na internet retornou as seguintes publicações em português e em espanhol a respeito da ecologia linguística. Não tenho como avaliar o material, ainda. Os títulos e os links são os seguintes:



"Se a ecolinguística é definida como o estudo das relações da língua com sua ecologia, ainda fica o desafio de articular bem o que é ecologia de uma língua e se seus diferentes componentes se relacionam diretamente com ela. O triângulo interativo que Couto propõe, ou seja, língua, território e população, é, definitivamente, um convite a uma reflexão mais acurada e empiricamente fundamentada, lembrando-nos que, entre outras coisas, tanto população quanto território são internamente estruturados. Nesta nova e importante contribuição à literatura ecolinguística, Hildo do Couto nos fornece um arcabouço para examinar a prática e a evolução linguística no Brasil de uma perspectiva nova e enriquecedora. Ele nos leva a refletir sobre como vários fatores ecológicos moldaram o português, pelo intermédio da população, bem como deram lugar a estruturas e vitalidades diferenciadas nas outras línguas do Brasil." 
(texto divulgado pelo editor. Sumário e Introdução disponíveis no link)

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"Vuit especialistes intervenen, en aquest volum, per descriure processos de naixement i de mort de llengües o de dialectes. L'enfocament és múltiple i variat: si la referència al rossellonès, a l'alguerès o a l'aragonès són mostres de desaparició lingüística, hi ha també les diferències experimentades entre llengües veïnes com el català i el castellà, o la creació de varietats lingüístiques com els pidgins o criolls, que s'exemplifiquen en les formacions del Carib, a més d'altres estudis sobre els dialectes del basc, l'asturià i el jueu-espanyo."
(texto divulgado pelo editor)

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"Ecolingüística é definida como o estudo das relações entre língua e meio ambiente, o que significa que ela toma conceitos da ecologia biológica para construir suas bases epistemológicas. Os dois passos iniciais são, portanto, verificar (1) quais são os conceitos ecológicos mais importantes e (2) quais são seus equivalentes nos estudos da linguagem, ou como são aplicados nela, entre eles, os de ecossistema, diversidade, inter-relações e evolução. A ecolingüística encara os fatos da linguagem em sua dinâmica e em suas inter-relações. Seu objeto já vinha sendo investigado por disciplinas parcelares. Ela não veio substituí-las.Tampouco tem a pretensão de estudar tudo. Praticar ecolingüística é continuar fazendo o que já se fazia antes, na área da linguagem, só que se colocando em uma nova perspectiva, holística, integradora. É uma nova postura frente a vida e ao mundo. Numa época de crescente devastação do meio ambiente, causada pelo aumento brutal da população, cada ser pensante tem obrigação de conscientizar as pessoas, a fim de tentarmos frear o processo, em nosso próprio interesse. A natureza é neutra a esse respeito. Uma maneira de assumir a nova postura é cada lingüista continuar estudando sua árvore, sem esquecer que ela faz parte de uma floresta." (texto divulgado pelo editor


Esse autor brasileiro dos livros sobre ecologia linguística, Hildo Honório do Couto, é professor da UnB. Ele tbm participa desse dossiê da ComCiência sobre linguagens:




Acho curioso como, muitas vezes, temos acesso imediato a certas fontes estrangeiras, principalmente em língua inglesa (aqueles que dominam o mercado editorial mundial das idéias) em detrimento daquelas fontes que são produzidas pelos nossos colegas (sem nenhum xenofobismo pretendido, aqui). Mas tudo isso precisa ser posto em perspectiva. Muitas vezes, a produção interna do conhecimento linguístico, no Brasil, além de mal divulgada, é apenas uma "mastigação" daquelas fontes estrangeiras. Não parece ser o caso desse autor professor da UnB, cuja publicação parece, sem ler mais do que o sumário, bastante original.