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sábado, 16 de outubro de 2010

Bas Aarts e a argumentação sintática

Aarts, Bas. English syntax and argumentation. 2ª ed. New York: Palgrave Macmillan, 2008, pp. xvi + 368.

O livro de Bas Aarts, linguista holandês da University College de Londres, apresenta uma parte interessante [Cap. 10 “Syntactic Argumentation”, pp. 171-192] referente aos fundamentos metodológicos da teoria e análise linguísticas (neste caso, sobre o nível sintático) que trata do modo como é elaborada o que o autor chama de “argumentação sintática” (syntactic argumentation) e também do funcionamento do “raciocínio sintático” (syntactic reasoning), que tem o valor de sinônimo da primeira. Em outras palavras, o autor pretende tornar explícitos os aspectos metodológicos na construção de uma hipótese falseável (falsification-hypothesis) durante o processo analítico em sintaxe.

András Kertész, linguista e filósofo da linguística húngaro conhecido pelo seu tratamento meta-teórico em linguística através da análise argumentativa, ao resenhar[1] a terceira edição do livro de Aarts, comenta favoravelmente a abordagem do autor sobre a argumentação sintática afirmando que “… conscious reflection on the technique of syntactic argumentation is a highly effective means to introduce the student to the practice of problem solving in syntax”. É verdadeiro o que afirma Kertész, porém um tanto desprovido de força de persuasão . Em outras palavras, ele está querendo dizer que o conhecimento do funcionamento do racicínio sintático responsável pela construção da argumentação sintática pode contribuir para que o analista em formação tome consciência dos procedimentos analíticos adotados e possa, quando for dele exigido, tomar posição em um processo de decisão. Contudo, apesar de verdadeira esta afirmação, não poderíamos dizer que ela pertence à consciência meta-teórica do analista, mas sim à consciência meta-linguística, isto é, a respeito da linguagem utilizada durante o processo analítico. Tudo isso é, sim, algo positivo e talvez fosse exigir demais que durante o processo analítico o linguista em formação tenha condições de manipular seu conhecimento meta-teórico e utilizá-lo a seu favor durante o processo de análise. Admito que a exigência deste nível de consciência deve ser esperado apenas do linguista experiente, mas até que ele alcance este ponto pode ser vantajoso que tenha consciência de que este é um nível de consciência analítica desejável e para isso, portanto, precisaría conhecê-lo minimamente.

A utilização da hipótese falseável não é um recurso argumentativo do nível meta-teórico, mas sim do nível analítico e sua utilização consciente faz parte da conciência meta-linguística sobre os processos metodológicos de análise linguística. A identificação de sua utilização e a avaliação desta utilização e suas implicações ao apoiar racionalmente e contribuir para a justificativa empírica da construção teórico-analítica é que corresponde a uma reflexão meta-teórica. A conclusão a que chego é que Aarts não está fazendo uma análise meta-teórica da construção argumentativa na atividade de análise linguística (sintática), ele está fazendo uma reconstrução da própria argumentação no processo de análise e utilização do mecanismo de construção de uma hipótese falseável, fazendo não mais do que tornar explícita a utilização meta-linguística neste processo.

[18 nov. 2010 Adendo]: Para os interessados na análise meta-teórica em linguística a partir do ponto de vista da construção dos argumentos teóricos e analíticos, além dos trabalhos de Kertész (mencionado acima) deixo aqui a sugestão de duas referências já tradicionais nesta abordagem, do autor que talvez tenha iniciado este tipo de análise (estou me referindo ao linguísta sul-africano Rudolf P. Botha):

[1] "The Methodological Status of Grammatical Argumentation" (Mouton, 1970). Trata-se de um estudo preliminar (preparação para o estudo seguinte, abaixo) em que o autor estabelece a forma do chamado 'argumento gramatical'.

[2] "The Conduct of Linguistic Inquiry: A systematic introduction to the methodology of generative grammar" (Mouton, 1981). Trata-se do desenvolvimento do conceito de 'argumento gramatical' (apresentado no estudo acima) apresentando-o no contexto de funcionamento da investigação linguística (especificamente da gramática gerativa transformacional).


E aqui: <http://www.springerlink.com/content/b5025259tg035572/> a resenha de [1] por Marcelo Dascal, em 1973, na revista Philosophia. O trabalho também recebeu uma resenha (bem menos aprofundada do que a análise de Dascal) de Georgia M. Green, em 1972, na revista American Anthropologist, aqui: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1525/aa.1972.74.6.02a00900/abstract>.

**Outros trabalhos poderiam ser mencionados aqui, seguindo esta linha de investigação dos fundamentos da construção teórica em linguística. Desde os trabalhos mais formais que procuram enquadrar a investigação linguística em uma lógica da investigação científica, como nos trabalhos de Jaakko Hintikka, até a perspectiva comprometida com os fundamentos da justificação empírica das hipóteses teóricas em linguística. Poderia mencionar, sem intenção de ser exaustivo, os trabalhos do linguísta finlandês Esa Itkonen, do inglês Geoffrey Sampson, do filósofo australiano Michael Devitt e muitos outros que estão procupado com o modo como a prática da teorização em linguística se desenvolve. Este é o assunto que mais me interessa em relação aos estudos linguísticos e que delimita um campo de investigação ao qual eu chamo de filosofia da linguística. Para saber um pouco mais sobre o desenvolvimento deste campo de investigação no Brasil, ver o trabalho do linguista José Borges Neto (UFPR), que tem parte de sua investigação publicada na coletânea "Ensaios de Filosofia da Linguística" (Parábola, 2004).

[1] Ver a seção Book Notice na página eLanguage da Linguistic Society of America (LSA) disponível em < http://www.elanguage.net/blogs/booknotices/?p=1198 >.

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