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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Agradecimentos


A Clara Dornelles (linguista aplicada e professora dedicada, além de minha companheira, parceira e interlocutora preferida durante todos esses anos); à Professora Marli Borges (minha mãe, aquela que me introduziu nas primeiras letras e a quem dedico este trabalho); a Claudia Borges de Faveri (professora, linguista, literata e tradutora, além de minha irmã, que tantas vezes se dispôs, como sempre, a me ouvir, em minha impaciência); a Sarita Borges de Faveri (professora, bióloga, além de minha irmã, a quem frequentemente também me ouviu nas minhas tentativas de impor o relativismo linguístico à biologia. Gostaria ainda de poder agradecer ao meu pai, a quem não sou de todo ingrato.

A José Borges Neto, meu orientador e quem me introduziu na teoria das controvérsias e me apresentou à obra de Marcelo Dascal, pela paciente sutileza com que me conduziu neste processo (além do possível interesse inconfessável, porém muitas vezes demonstrado, neste meu trabalho); ao próprio Marcelo Dascal, pelo seu interesse inquebrantável, paciência e impaciência, gentileza, generosidade, amizade, além de ter me recebido e introduzido incondicionalmente em seu vasto grupo de relações e de trabalho na Universidade de Tel Aviv e em todo o mundo; a Anna Carolina Regner, que me recebeu em seu grupo de pesquisa em controvérsias, me apoiou e incentivou a prosseguir com o trabalho, e pela leitura detalhada da primeira versão deste texto durante o processo de qualificação; a todo o pessoal da UFPR, especialmente ao Programa de Pós-Graduação em Letras, com quem travei relações durante estes anos, pela paciência em me aceitar como um legal alien e por todo o apoio concedido.
Suponho que eu devesse agradecer à CAPES e ao CNPQ que financiaram não só este meu período de doutorado, mas toda minha formação acadêmica. Apesar de me sentir grato por ter tido esta oportunidade, acredito que estes órgãos não fizeram mais do que a sua obrigação com a educação no país. Também sou grato pela oportunidade de ter um emprego como professor em uma universidade federal, na Unipampa, o que me parece um resultado condizente com o investimento que recebi. Agora tenho a oportunidade de retribuir o investimento e de dar continuidade à tarefa educacional a que me referi acima.
Agradeço ainda a todos aqueles, amigos e conhecidos, em Florianópolis, em Curitiba, em Tel Aviv, em Porto Alegre e aqui em Bagé, que participaram direta ou indiretamente deste processo que me ocupou durante vários anos, contribuindo com sugestões e opiniões de toda natureza, além do apoio, impossível de nomeá-los por completo. A todos, muito obrigado.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Bom, aqui estamos

Há quatro dias da defesa, aqui estou em Bauru/SP participando do GEL. Voltei a reencontrar com o Marcelo (Dascal). A conferência de abertura dele, sobre a pragmática, não poderia ser melhor caracterizada do que se fosse classificada de dascaliana. Na platéia, uns gostam (acham ele engraçado), outros não gostam (acham ele arrogante), e aqueles que tem a paciência para não gostar nem desgostar, procuram entendê-lo de modo crítico. Este é o meu caso. Pratico a paciência de aprender a ouví-lo, e ele diz muita coisa relevante. Não é um linguísta comum, nem um filósofo comum. Uma das coisas que mais gosto no que ele diz é seu aspecto anti-dogmático, de desfazedor de certezas.

Aqui em Bauru, tbm tive a oportunidade de conhecer pessoas de outras universidades, principalmente paulistas. De São Carlos conheci o Prof. Baronas, que organiza a revista "Linguasagens", muito bem organizada e cheia de informações e novidades. Confesso que é uma visão da linguística que não tinha contato fazia um tempinho, a dos saussureanos. Encontrei na Linguasagens dois artigos tratando de uma certa filosofia da linguística saussureana: Signori & Baronas "Filosofia da Linguística: Três Saussure(s)?" e Oliveira "A filosofia da linguística e a crise no paradigma científico: Contribuições saussurianas e bakhtianas". Em uma ocasião seguinte, farei alguns comentários à perspectiva de 'filosofia da linguística' que estes autores elaboram em seus artigos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

The three theses about the controversies

1. "Controversies are indispensable for the formation, evolution, and evaluation of (scientific) theories and practices, because it is through them that the essential role of criticism --in engendering, improving, and controlling the 'well-formedness' and 'empirical content' that grant 'objectivity' to scientific theories and practices-- is performed".

[As controvérsias são indispensáveis para a formação (constituição), evolução (desenvolvimento) e avaliação das teorias e práticas (científicas), pois é através das controvérsias que é realizado o papel fundamental da crítica, a saber, a criação, aperfeiçoamento e controle da  relação entre a 'consistência formal (descritiva e explicativa) e o conteúdo empírico' (well-formedness and empirical content) a qual garante a 'objetividade' para a teoria e prática científicas.]


2. "The rigorous study of controversies is an indispensable means for providing an adequate description of the evolution of scientific ideas and for the understanding of their meaning. For controversies are, in fact, the natural 'dialogical context' where theories are elaborated and where their meaning progressively crystallizes through the challenge of actual objections".


[O estudo detalhado das controvérsias é um dos meios indispensáveis para o fornecimento de uma descrição e compreensão (interpretação) adequadas da evolução (desenvolvimento) das idéias (teorias e práticas) científicas. Pois as controvérsias constituem, de fato, o 'contexto dialógico' em que estas teorias são elaboradas e no qual o significados destas teorias progressivamente se cristalizam, através do confronto de idéias --entre proposições e objeções.]

3. "Once started, a controversy has no a priori limits as to where it will stop in its questioning of entrenched beliefs, concepts, methods, modes of interpretation, data, criteria of relevance, norms of formulation, acceptance and rejection of hypotheses, and other components of the scientific enterprise. Nor does it ensure that a 'solution' for the problem(s) it addresses will be found. Such an unrestricted questioning and problem handling may lead to a situation of radical openness in a given field, which in turn creates conditions that are favorable --and perhaps essential--  for the emergence of radical innovation".
[Uma vez iniciada, uma controvérsia não possui a priori limitações sobre o ponto em que concluirá seus questionamentos a respeito das crenças, conceitos, métodos, modos de interpretação, dados, critérios de determinação de relevância, normas de formulação, aceitação ou rejeição de hipóteses e de outros componentes da atividade científica. Muito menos é garantido que será encontrada uma 'solução' para os problemas dos quais ela trata. Este modo irrestrito de questionamento e tratamento de problemas pode levar a uma situação de abertura radical em um determinado campo de investigação, o qual, por sua vez, possibilita o estabelecimento de condições favoráveis --e, talvez, essenciais-- para o surgimento de inovações radicais em relação ao campo de investigação.]


Acima, temos a versão mais recente (Dascal, 2010) das três teses fundamentais sobre a natureza e função das controvérsias.



sábado, 7 de maio de 2011

Da irredutibilidade da química à física: uma questão controversa

Mesmo sendo este blog voltado principalmente para questões controversas na linguística, abro aqui espaço para uma consideração sobre uma questão que fomentou um pequeno debate entre mim e dois amigos meus, um deles físico e o outro químico, a respeito da dependência e redutibilidade dos fundamentos da química aos pressupostos da física. Na ocasião, há alguns meses atrás, estávamos na casa de um deles em uma apresentação de algumas idéias em um grupo de estudos para o qual fui convidado participar naquela ocasião específica. Alguns modelos físicos estavam sendo apresentados por um dos orietandos do meu amigo físico, e meu outro amigo, o químico, estava, assim como eu, assistindo à apresentação. Ao final da apresentação, na parte dos comentários e perguntas, surge (já não me lembro o motivo) a questão da redutibilidade dos fundamentos da química aos princípios fundamentais da física. Infelizmente não posso especificar melhor os argumentos que então eram apresentados, já não me lembro. Lembro, porém, que o meu amigo físico afirmava e defendia enfaticamente a redutibilidade da química à física. Imediatamente me opus a esta ideia, e disse, que mesmo sem conhecimento dos detalhes, não acreditava que a química fosse redutivel à fisica e mencionei que a existência de um campo de investigação como a filosofia da química deveria tratar desta questão de maneira menos dogmática. Fui questionado a respeito da existência de tal campo de investigação e meu amigo químico pareceu, de certa forma, satisfeito com a ideia da redutibilidade. Incrédulo e fiel ao meu principo de que é preciso se duvidar de tudo, não com uma dúvida metódica, mas sentí-la como necessária para a garantia do conhecimento (Kierkegaard), insisti que não era possível tal redução. Os argumentos um tanto enfáticos e definitivos de meu amigo, autoridade para mim no terreno da física, além da postura circunspecta de meu outro amigo, autoridade para mim no terreno da química, não me pareciam suficientes, muito menos convincentes. Minha conclusão, então, na época, era: precisamos investigar esta questão mais de perto, consultar algumas fontes e procurar saber o que pensam aqueles menos comprometidos com a certeza da redutibilidade de uma pela outra.

Obviamente, eu não tinha condições de perseguir esta questão, mas lembro que cheguei a enviar aos meus dois amigos o link de uma referência tratando dos fundamentos da química, disciplina que se intitulava por filosofia da química, uma disciplina com sua prórpia sociedade internacional na International Society for the Philosophy of Chemistry, além de vários meios de publicação como por exemplo, Hyle: International Journal for Philosophy of Chemistry, ou a revista Foundations of Chemistry.

Eis que agora, todos estes meses depois, encontro este abstract tratando exatamente desta questão
"La controversia acerca de la relación entre química y física" de Martín Labarca (Universidad Nacional de Quilmes). Labarca desenvolve seus argumentos, neste e em outros artigos (p.ex. na revista Foundations of Chemistry, vol. 7, nº 2, p. 81-92, juntamente com Olimpia Lombardi "The ontological autonomy of the chemical world"), em defesa da autonomia epistemológica e ontológica da química. O abstract de seu artigo diz:
Sobre la base del espectacular éxito predictivo de la mecánica cuántica se impone la idea de una total dependencia teórica de la química respecto de la física: los fenómenos químicos serían, en última instancia, fenómenos físicos, que son estudiados por una disciplina diferente a la física sólo debido a su extrema complejidad, pero no porque no sean teóricamente irreducibles a ella.
Frente a este supuesto muy difundido en la comunidad científica y filosófica, la más frecuente línea de argumentación propuesta por los filósofos de la química para defender la autonomía de la química y la legitimidad de su propio campo de investigación filosófica, es la que enfatiza la imposibilidad de reducción epistemológica de la química a la física. Si bien los argumentos particulares difieren entre sí, todos los autores concuerdan en considerar que las leyes y los conceptos de la química no pueden derivarse de los conceptos y las leyes de la física cuántica.  Sin embargo, la reducción ontológica suele no ser puesta en duda: cuando se las analiza en profundidad, las entidades químicas no son más que entidades físicas.
Se instala así el debate: por un lado, los físicos y la mayor parte de los químicos cuánticos conciben a la química como una rama especial de la física; por el otro, los químicos generales y los filósofos de la química defienden la autonomía de la química rechazando la reducción de las leyes y conceptos químicos en términos cuánticos.
Sólo muy recientemente una nueva generación de filósofos de la química ha comenzado a desafiar esta concepción tradicional acerca de la relación entre química y física.  Estos autores no sólo rechazan la reducción epistemológica de la química a la física, sino que comienzan a cuestionar la supuesta reducción ontológica desde distintas perspectivas filosóficas.  En consecuencia, la controversia parece haber ingresado en una etapa de refocalización, al incorporar nuevos argumentos filosóficos que abordan el status de las entidades y regularidades del mundo químico desde una perspectiva ontológica, lo cual permite revertir la tradicional jerarquía de las ciencias naturales que ubica a la física al tope de la misma. 
El objetivo del presente trabajo consiste en analizar este debate desde un punto de vista conceptual, a la luz del modelo propuesto por Oscar Nudler acerca de la dinámica de las controversias científicas y filosóficas.  Este análisis permitirá identificar las nociones centrales del modelo en el caso particular de esta controversia, así como reconocer la transformación que ha sufrido la misma durante los últimos años. En particular, se argumentará que dicha transformación puede conceptualizarse como un proceso de refocalización que incorpora nuevas perspectivas y dimensiones a la controversia original.
Labarca tem ainda publicado o artigo "La relación entre la química y la física: origen y vigencia de un espacio controversial", no livro Espacios controversiales. Hacia un modelo de cambio filosófico y científico (Miño y Dávila Editores, 2009), do filósofo chileno Oscar Nudler [o qual receberá, em breve, uma edição em língua inglesa publicado na série Controversies, editada por Marcelo Dascal].

A minha conclusão é a de que não podemos ter ainda tanta certeza assim de que a química seja uma ciência redutivel à física. Não tenho como explorar mais a fundo esta questão, além de indicar estas referências. Acredito assim que as certezas a respeito da redutibilidade da química pela física não possam ser tão categoricamente afirmadas e definitivamente garantidas. Isto é o que parece mostrar o abstract de Labarca. Contudo, maiores aprofundamentos são necessários (p.ex. ler outras publicações a este respeito, além do trabalho de Labarca, como o livro Of Minds and Molecules: New philosophical perspectives on chemistry editado por Bhushan e Rosenfeld (OUP, 2000).

Mas por que afinal é importante esta questão da redutibilidade química, para além da minha tentativa de apontar para a dúvida a respeito de sua certeza? Parece-me que este é apenas um dos exemplos possíveis a serem explorados contra as certezas do poder reducionista que a física supostamente apresentaria. Este pequeno exercício de dúvida poderá talvez se estender às tentativas de redução pela fíísica, além da química, também à biologia, à psicologia e (por que não) à linguística.

sábado, 26 de março de 2011

Proposta de investigação

"August Schleicher, the First Controversialist in Linguistics"

- Schleicher intended to promote a naturalistic turn in the study of language:
- Naturalistic in Schleicher context meant empirical and historical;
- He polemicized against the classical philological approach to the study of language that had been developing in indo-European linguistics since at least the ideas of Schlegel:
         - 
- Then Schleicher adopted from his friend Ernest Haeckel the Darwinian perspective on evolution, proposing that language was the natural object that could satisfy the so called ‘missing link’;
- Schleicher developed the branching method, the tree diagramming method to represent the genetic relationship among languages;
- In a sense it was Schleicher who originated the biological approach to the study of language;


Some questions:

How e why does a controversialist attitude emerges in a scientific discipline at the same time defining it and making it a science?
            -Maybe some answers will be find starting from the transformations occurred to the argumentative forms at the end of the 19th century (see Plantin);
         - This same fact is directly related to the opposition linguistics and philology;

Some ideas:
A controversialist is not a natural born kind, it is allowed by its context.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O último resumo da tese

Os debates a respeito de questões polêmicas, sejam de natureza conceitual, metodológica, ou outra, constituem, ao longo da história do desenvolvimento do conhecimento linguístico, um dos motores da inovação conceitual e da mudança teórica em linguística. Estes eventos de mudança podem ser interpretados e compreendidos a partir da análise das práticas argumentativas dos indivíduos envolvidos nas atividades de investigação e de elaboração de teorias linguísticas devidamente situadas em seus contextos históricos, culturais e epistemológicos.
Sob esta perspectiva, o trabalho científico sobre a linguagem se constitui, fundamentalmente, pela elaboração, desenvolvimento e avaliação de propostas teóricas e analíticas, as quais, por sua vez, irão constituir os programas de investigação, as tradições e as tendências de pesquisa. Os eventos de inovação conceitual e mudança teórica são, para fins analíticos, reconstruídos, em parte, pela interpretação histórica e cultural do contexto em que ocorrem e, em parte, pela interpretação dos usos dos argumentos utilizados pelos participantes em suas estratégias argumentativas de proposta, justificativa, crítica, avaliação e defesa de suas teorias. Toda proposta teórica/analítica é, sempre, em maior ou menor grau, uma resposta a uma teoria anterior já sedimentada.
O método analítico utilizado para a identificação, descrição e avaliação destes eventos polêmicos é a teoria das controvérsias. Este método se fundamenta em uma tipologia que orienta a interpretação das estratégias argumentativas utilizadas pelos participantes em um debate. As práticas argumentativas implementadas nestes debates são, por sua vez, estruturadas pragmaticamente, sendo que, devido à sua forma de funcionamento, caracterizam-se como eventos linguísticos dialógicos. A interpretação pragmática da interação comunicativa que estrutura os debates científicos funciona como modelo e instrumento de análise das interações polêmicas concretas. Em grande parte das vezes, o modo de expressão do conhecimento teórico é tão importante quanto aquilo que é efetivamente dito sobre o objeto de investigação em questão.
O objetivo específico da proposta é a reavaliação da polêmica da semântica gerativa, a qual, muitas vezes, tem sido caracterizada, simplesmente, como um evento irracional. Ou, ainda, em alguns casos, do ponto de vista historiográfico, por exemplo, a semântica gerativa tem sido considerada como uma tendência de pesquisa concorrente a qual, no contexto do debate sobre o conceito de estrutura profunda, teria sido refutada pelo programa oposto, a chamada semântica interpretativa. Pelo contrário, como todos os outros eventos polêmicos na história da linguística, esta polêmica possui sua racionalidade específica, característica comum a todos eventos de desacordo teórico. Esta reavaliação possibilita, além da reconstrução do percurso de desenvolvimento do conceito de estrutura profunda, a reinterpretação da história da reflexão semântica em gramática gerativa. O objetivo geral da investigação é o de introduzir o estudo dos debates científicos na atividade de interpretação metateórica em linguística, a fim de contribuir ‑ dado a carência de reflexão sistemática desta natureza em linguística ‑ para o estabelecimento dos rudimentos de um programa de investigação em história e filosofia da linguística.
Dentre as tentativas de elaboração de uma abordagem sistemática de estudo a respeito dos fundamentos da mudança teórica e conceitual em linguística, muitas das abordagens meta-analíticas propostas ‑ seja de natureza historiográfica ou metodológica ‑ têm se mostrado ineficientes na resolução de determinados impasses teóricos e metateóricos que resultam da polarização de posições metodológicas estritas. A teoria das controvérsias fornece a possibilidade de uma interpretação despolarizante em relação a estas alternativas metodológicas.
Os resultados alcançados apresentam-se na forma de um ganho cognitivo complexo. Este envolve desde a percepção da influência e do valor da reflexão metateórica para a teoria e análise linguísticas até a compreensão de dois dos fatores fundamentais na mudança teórica e conceitual em linguística, a saber, a interação dialógica e a argumentação dialética. A compreensão destes conduz ainda à elucidação da natureza, forma e funcionamento dos argumentos utilizados na construção de teorias linguísticas. Como resultado adicional apresento a descoberta e o funcionamento de um novo tipo de implicatura, as chamadas implicaturas polêmicas.

Palavras chave: controvérsias, gramática gerativa transformacional, mudança do conhecimento em linguística, história e filosofia da linguística, componente semântico, estrutura profunda, argumentação dialética,

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Excelente boa notícia para fechar o ano // Very good news at the end of the year

Enquanto a tese não sai..., deixo aqui uma ótima boa notícia: a revista Histoire Épistémologie Langage está disponível on line desde seu primeiro número. Aqui:



The very good news is that the journal Histoire Épistémologie Langage is available on line on the link above.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pouco é melhor que nada?

Como não estou conseguindo me dedicar à atualização deste blog como gostaria, deixo aqui uma mensagem para meditação durante as festas de fim de ano. Afinal, quero acreditar que um pouco é melhor do que nada (em outra oportunidade prometo me deter sobre o valor desta afirmação). Aqui vai a mensagem:

"Methodology, the bread-and-butter of a scientist working in any given field, is usually spinach to those outside".
(Miller, George A., 1971/1967, "Empirical methods in the study of semantics")
Em um outro post apresentarei o resultado da minha própria meditação sobre a mensagem acima.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Livro novo com um pouco de ceticismo

Aqui está a notícia do novo livro de Peter Ludlow "The Philosophy of Generative Linguistics". Confesso que não é sem uma boa dose de ceticismo que recebo a notícia. O anúncio do livro na página da OUP não é muito informativa, apresentando uma caracterísitica muito forte de propaganda do livro, eis aqui:
Peter Ludlow presents the first book on the philosophy of generative linguistics, including both Chomsky's government and binding theory and his minimalist program. Ludlow explains the motivation of the generative framework, describes its basic mechanisms, and then addresses some of the many interesting philosophical questions and puzzles that arise once we adopt the general theoretical approach. He focuses on what he takes to be the most basic philosophical issues about the ontology of linguistics, about the nature of data, about language/world relations, and about best theory criteria. These are of broad philosophical interest, from epistemology to ethics: Ludlow hopes to bring the philosophy of linguistics to a wider philosophical audience and show that we have many shared philosophical questions. Similarly, he aims to set out the philosophical issues in such a way as to engage readers from linguistics, and to encourage interaction between the two disciplines on foundational issues.
"O primeiro livro sobre a filosofia da linguística gerativa" é sem dúvida nenhuma um exagero. Há vários livros sobre o assunto, e estou tentando apresentá-los aqui  neste blog aos poucos, na medida do possível. O índice do volume pode ser um pouco mais informativo do que sua descrição:

Table of Contents

Preface
Acknowledgements
Introduction: The Plan
1. Linguistic Preliminaries
2. The Ontology of Generative Linguistics
3. Linguistic Data and Linguistic Judgments
4. A Role for Normative Rule Governance?
5. Worries about Rules and Representations
6. Referential Semantics for narrow ?-languages?
7. Best Theory Criteria and Methodological Minimalism
Appendix: Interview with Noam Chomsky
Bibliography
E ao final o livro traz uma entrevista com Noam Chomsky. Mais uma! Será que ele ainda tem alguma coisa a dizer sobre a gramática gerativa? Vejamos. ** O título do capítulo 6 permanece um mistério.

Primeiro uso da expressão 'filosofia da linguística'?

É bastante conhecido o livro editado por Jerrold KATZ em 1981 com o título The Philosophy of Linguistics (OUP). Muitos conhecem a expressão 'filosofia da linguística' principalmente a partir deste livro, que é uma coletânea de textos de autores que são considerados ou linguistas, ou filósofos. Nomes como Bloomfield, Harris, Quine, Sapir, Chomsky, Stich, Fodor, Hjelmslev, Soames, Langendoen, Postal e o próprio Katz são os autores que figuram na coletânea. Em outra oportunidade, prometo fazer uma descrição mais detalhada do livro e talvez até algum comentário, quem sabe avaliando a possível proposta de uma filosofia da linguística por parte do organizador do volume. Responder, por exemplo, o que significa 'filosofia da linguística' para Katz e o que ele pretende ao apresentar os textos que apresenta na referida coletânea.

Mas para o momento, gostaria de fazer menção a um outro trabalho (uma tese de doutorado), escrito quase dez anos antes (em 1973) do livro mencionado e que pode ser, talvez, salvo engano, o uso mais antigo da expressão 'filosofia da linguística'. Certamente é o uso mais antigo do termo com o qual já me deparei. Estou falando do trabalho de doutorado de Paul MELLEMA intitulado "Problems in the Philosophy of Linguistics". Fica para um próximo post o comentário sobre este trabalho.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma excelente referência em historiografia linguística

Ketel, Els Elffers-van. The Historiography of Grammatical Concepts: 19th and 20th-century changes in the subject-predicate conception and the problem of their historical reconstruction. Amsterdam/Atlanta: Rodopi, 1991. 357 p.


[Em breve um post com comentários sobre o livro]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A proposta de Jorge Campos para uma Filosofia da Linguística: Uma alternativa para a reflexão meta-teórica da linguística no Brasil?

A reflexão e proposta de Jorge Campos (JC) para uma filosofia da linguística (FL) pode ser abordado em pelo menos quatro artigos d iautor (todos disponíveis na página pessoal do autor):
[1] “Filosofia da Linguística, Filosofia da Ciência e Metateoria das Interfaces” [16 pp.]
[2] “Filosofia da Linguística” [6 pp.]
[3] “Uma Questão de Filosofia da Linguística” [5 pp.]
[4] “Entre o Empírico e o Formal: Uma questão Problemática de Filosofia da Linguística” [5 pp.]

A partir da consideração do texto [1], a perspectiva de JC a respeito da FL pode ser sintetizada pelas seguintes características:
(a). A FL é uma sub-disciplina da filosofia da ciência (FC) (hipótese), sendo que a FC é que deve determinar os tópicos de interesse e a metodologia de investigação a ser utilizada na interpretação metateórica da ciência específica, no caso a linguística.
(b). A FL, assim como a filosofia da física e a filosofia da biologia, não interagem (o suficiente) com as ciências sobre as quais constroem metateorias; os debates entre elas (entre teorias e entre a teoria e meta-teoria) são, em geral, improdutivos;
(c). É preciso que haja unificação teórica em um campo científico para que seja possível uma filosofia da ciência específica sobre aquele campo teórico.

JC propõe, incialmente, uma definição 'fraca' para a FL:
Talvez fosse útil caracterizar a Filosofia da Lingüística como um conjunto de conhecimentos filosóficos, metateóricos e históricos a fundamentar as ciências da linguagem para que se estabelecesse essa tradição. ([1], pg. [8])

'Fraca' no sentido em que o próprio autor tem dúvidas a reséito da importância ou necessidade, ou realidade de sua caracterização. É compreensível. Toda precaução, em casos como este, é bem-vinda: “talvez fosse útil”, o que atribui à sua proposta de uma FL um caráter incerto. Em seguida, ele faz outra afirmação 'fraca' (talvez, mais fraca do que a primeira) em que afirma que além da falta de unidade entre as teorias, os debates entre elas é improdutivo. Esta percepção é fraca porque rejeita completamente o caráter dialético na relação das teorias e consequentemente a importância das controvérsias para o seu desenvolvimento.
A tentativa de uma reorganização metateórica das ciências da linguagem passa pelo levantamento de problemas cruciais sugeridos pela Filosofia da Ciência em geral e por uma tentativa de reavaliar metateoricamente os programas potenciais de investigação. ([1], pg. [8])

Problemas (ou dificuldades) que deveriam ser superados para que pudesse haver uma FL coerente (e unificada) e que definiriam propostas para programas de investigação para a meta-teorização linguística, seriam:
(i). a diversidade de concepções (DC)
(ii). o caráter interdisciplinar indefinido (CII)
(iii). as circunstâncias ricas para universalidade trivial (CRUT)
(iv). a inadequação entre descrição e explanação (IDE)

Para JC, o problema representado em (i), a diversidade de concepções propostas por programas de investigação incompatíveis, impede a elaboração de uma metateoria coerente e unificada. Ele menciona como exemplos destes programas a ‘sintaxe gerativa’, a ‘análise do discurso’, a ‘semântica formal’ e a ‘linguística cognitiva’. Para JC, estes programas propõem princípios e interpretações incompatíveis. Entre princípios sociais, cognitivos ou formais [pg. 9] é preciso haver alguma forma de correlação. Sendo o caráter interdisciplinar que relaciona conceitos subordinados a princípios incompatíveis, nas atuais propostas de programas de investigação, como estes, surge o problema representado em (ii). As propriedades cognitivas, sociais e formais precisam ser subordinadas de modo coerente em um mesmo programa de investigação que deve, por sua vez, responder aos princípios de uma meta-teoria geral (uma FC geral). Um terceiro agravante, representado pelo problema (iii), a dificuldade se produzir ‘generalizações relevantes’, sendo que os universais propostos são, geralmente, demasiadamente restritos. O problema (iv) representa a condição de desajuste entre descrição e explicação (adequação descritiva e adequação explicativa, nos termos da gramática gerativa transformacional [GGT]), mas JC não se limita à dicotomia expressa ao nível de um único programa de investigação, identificando o problema da incompatibilidade entre descrição e explicação entre programas de orientação divergentes, como o representado pelo gerativismo (com seu excesso de aparato descritivo de formalização), de um lado, e pela análise do discurso (com seu construcionismo excessivo), de outro.
            Uma alternativa possível, poderíamos chamar de uma FL pluralista que procurasse ao mesmo tempo ter um caráter geral, concentrando-se sobre problemas que podem ser considerados universais, isto é, comuns e com um certo grau de relevância a todas as teorias propostas, e um caráter particular, sobre teorias campos teóricos específicos que compartilham noções com mais de uma proposta teórica. }{ JC não vê continuidade no desenvolvimento histórico da linguística e concebe os modelos teóricos como essencialmente incomensuráveis. Contudo ele propõe um programa de investigação para o tratamento meta-teórico da linguística que, segundo o autor, supera os problemas (dificuldades) apontados. Sua proposta surge da necessidade de inovação conceitual em um contexto de desenvolvimento interdisciplina. A este programa ele chama de ‘meta-teoria das interfaces’:
Dado esse contexto interdisciplinar, o que se pode desenhar para a ciência da linguagem é uma metateoria de interfaces, compatível com a história da Linguística e praticamente solução rara a compatibilizar a diversidade de modelos e encaminhar a solução dos problemas anteriormente mencionados [ver acima ‘i-iv’]. ([1], pg. [8])

Assim, a compatibilização da multiplicidade teórica estaria sujeita à necessidade de satisfazer a característica geral (a) para uma FL, isto é, a condição de disciplina subordinada aos princípios de uma FC geral. Além disso, a interdisciplinaridade necessária poderia ser implementada a partir de cada um dos elementos representados por cada um dos programas de investigação (que colocam cada um deles, um dos problemas ‘i-iv’) e sintetizados, sob a perspectiva do programa meta-teórico geral das ‘interfaces’, a partir de uma perspectiva unificada e multidimensional, representada ao mesmo tempo por modelos do mesmo objeto em instâncias diferentes, a saber, natural, formal e social [pg. 11].
            Deste modo, o programa de investigação proposto por JC, denominado de ‘meta-teoria das interfaces’ abordaria este objeto unificado sob as seguintes condições [pg. 12]:
- admitindo a pluralidade teórica, incorporar a interdisciplinaridade inerente aos vários programas de investigação sobre a linguagem;
- um realismo metafísico para a condição ontológica da linguagem e, por conseguinte, para o estabeleceimento de sua apreensão cognitiva e sistematização epistêmica. Em outras palavras, o mundo “está lá” e a teoria sobre a língua trata apenas de algo que existe independente dela. Esta abordagem poderia ainda ser indentificada com um certo empirismo de senso comum;
- restringir a incomensurabilidade ao nível teórico mas desobrigá-la ao nível meta-teórico, tornando as teorias de alguma forma compatíveis;
- enfraquecimento da linguística como disciplina autônoma, diminuindo seu poder explicativo em relação às outras disciplinas com as quais ela interage;
- controlar a proliferação das interfaces através de um compromisso de limitação da construção de objetos teóricos interdisciplinares;
- incentivar o desenvolvimento das relações intradisciplinares em que teorias específicas é que definem as relações de interface interna.

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Os textos [2] e [3] abordam praticamente as mesmas questões, com pequenos acrescimos, porém sob a mesma perspectiva. Neles JC procura, primeiro situar a discussão sobre as formas que o realismo assume em FC situando em relação à discussão sobre a natureza do objeto em linguística, ou seja, a linguagem. Para tanto ele repete a mesma seleção de propostas de investigação sobre a linguagem que havia selecionado na sua proposta de uma programa de investigação meta-teórico para a linguística no texto [1]: Saussure, Bloomfield e Chomsky, e Montague. É de se esperar que o autor vá alinhar cada uma das propostas representadas por estes autores com sua delimitação das interfaces interdisciplinares da linguística: social, natural e formal, respectivamente.
            A partir deste quadro, o autor procura estabelecer um quadro de referência funcional em que a linguística poderia servir de campo de conhecimento fundamental para uma meta-teoria geral da ciência. As funções que autor identifica como tradicionalmente relacionadas à linguagem, são: de conhecer, de pensar e de comunicar.
            Nestes dois textos, praticamente iguais, JC trata da linguagem enquanto função do pensamento, cujo estudo para ele tem sido negligenciado na abordagem que os programas de investigação identificados acima realizam. No que diz respeito à sua proposta de uma programa de investigação meta-teórico para a linguística, as diretrizes continuam basicamente as mesmas, em relação ao texto [1].

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Já no texto [4], o autor aborda uma relação problemática na teoria linguística e que, consequentemente assim tbm se constitui para a reflexão meta-teórica. Como é perceptível já no título do artigo, trata-se da relação entre a condição daquilo que é definido e entendido como ‘empírico’, de um lado, e como ‘formal’, de outro, para a teoria e análise linguísticas. Depois de uma série de "suposições", que assumem a forma de postulados (A, B, C) [para mim B parece anterior a A]), questões (D), e um mixto de hipóteses e pressupostos (E, F) A proposta então se resume à investigação sobre a natureza do objeto proposto, a metodologia para abordar estes objeto e a reflexão (crítica, avaliação, interpretação) de suas relações interdisciplinares (efetivas e potenciais). Para ele, a consequência é que para uma FL a questão fundamental seria a "consideração sobre a natureza do objeto e da metodologia da teoria da linguagem, tópicos que deveriam constituir o que se poderia chamar de Filosofia da Lingüística" (p. 1). 

[Continua...]