Mesmo sendo este blog voltado principalmente para questões controversas na linguística, abro aqui espaço para uma consideração sobre uma questão que fomentou um pequeno debate entre mim e dois amigos meus, um deles físico e o outro químico, a respeito da dependência e redutibilidade dos fundamentos da química aos pressupostos da física. Na ocasião, há alguns meses atrás, estávamos na casa de um deles em uma apresentação de algumas idéias em um grupo de estudos para o qual fui convidado participar naquela ocasião específica. Alguns modelos físicos estavam sendo apresentados por um dos orietandos do meu amigo físico, e meu outro amigo, o químico, estava, assim como eu, assistindo à apresentação. Ao final da apresentação, na parte dos comentários e perguntas, surge (já não me lembro o motivo) a questão da redutibilidade dos fundamentos da química aos princípios fundamentais da física. Infelizmente não posso especificar melhor os argumentos que então eram apresentados, já não me lembro. Lembro, porém, que o meu amigo físico afirmava e defendia enfaticamente a redutibilidade da química à física. Imediatamente me opus a esta ideia, e disse, que mesmo sem conhecimento dos detalhes, não acreditava que a química fosse redutivel à fisica e mencionei que a existência de um campo de investigação como a filosofia da química deveria tratar desta questão de maneira menos dogmática. Fui questionado a respeito da existência de tal campo de investigação e meu amigo químico pareceu, de certa forma, satisfeito com a ideia da redutibilidade. Incrédulo e fiel ao meu principo de que é preciso se duvidar de tudo, não com uma dúvida metódica, mas sentí-la como necessária para a garantia do conhecimento (Kierkegaard), insisti que não era possível tal redução. Os argumentos um tanto enfáticos e definitivos de meu amigo, autoridade para mim no terreno da física, além da postura circunspecta de meu outro amigo, autoridade para mim no terreno da química, não me pareciam suficientes, muito menos convincentes. Minha conclusão, então, na época, era: precisamos investigar esta questão mais de perto, consultar algumas fontes e procurar saber o que pensam aqueles menos comprometidos com a certeza da redutibilidade de uma pela outra.
Obviamente, eu não tinha condições de perseguir esta questão, mas lembro que cheguei a enviar aos meus dois amigos o link de uma referência tratando dos fundamentos da química, disciplina que se intitulava por filosofia da química, uma disciplina com sua prórpia sociedade internacional na International Society for the Philosophy of Chemistry, além de vários meios de publicação como por exemplo, Hyle: International Journal for Philosophy of Chemistry, ou a revista Foundations of Chemistry.
Eis que agora, todos estes meses depois, encontro este abstract tratando exatamente desta questão
"La controversia acerca de la relación entre química y física" de Martín Labarca (Universidad Nacional de Quilmes). Labarca desenvolve seus argumentos, neste e em outros artigos (p.ex. na revista Foundations of Chemistry, vol. 7, nº 2, p. 81-92, juntamente com Olimpia Lombardi "The ontological autonomy of the chemical world"), em defesa da autonomia epistemológica e ontológica da química. O abstract de seu artigo diz:
Sobre la base del espectacular éxito predictivo de la mecánica cuántica se impone la idea de una total dependencia teórica de la química respecto de la física: los fenómenos químicos serían, en última instancia, fenómenos físicos, que son estudiados por una disciplina diferente a la física sólo debido a su extrema complejidad, pero no porque no sean teóricamente irreducibles a ella.
Frente a este supuesto muy difundido en la comunidad científica y filosófica, la más frecuente línea de argumentación propuesta por los filósofos de la química para defender la autonomía de la química y la legitimidad de su propio campo de investigación filosófica, es la que enfatiza la imposibilidad de reducción epistemológica de la química a la física. Si bien los argumentos particulares difieren entre sí, todos los autores concuerdan en considerar que las leyes y los conceptos de la química no pueden derivarse de los conceptos y las leyes de la física cuántica. Sin embargo, la reducción ontológica suele no ser puesta en duda: cuando se las analiza en profundidad, las entidades químicas no son más que entidades físicas.
Se instala así el debate: por un lado, los físicos y la mayor parte de los químicos cuánticos conciben a la química como una rama especial de la física; por el otro, los químicos generales y los filósofos de la química defienden la autonomía de la química rechazando la reducción de las leyes y conceptos químicos en términos cuánticos.
Sólo muy recientemente una nueva generación de filósofos de la química ha comenzado a desafiar esta concepción tradicional acerca de la relación entre química y física. Estos autores no sólo rechazan la reducción epistemológica de la química a la física, sino que comienzan a cuestionar la supuesta reducción ontológica desde distintas perspectivas filosóficas. En consecuencia, la controversia parece haber ingresado en una etapa de refocalización, al incorporar nuevos argumentos filosóficos que abordan el status de las entidades y regularidades del mundo químico desde una perspectiva ontológica, lo cual permite revertir la tradicional jerarquía de las ciencias naturales que ubica a la física al tope de la misma.
El objetivo del presente trabajo consiste en analizar este debate desde un punto de vista conceptual, a la luz del modelo propuesto por Oscar Nudler acerca de la dinámica de las controversias científicas y filosóficas. Este análisis permitirá identificar las nociones centrales del modelo en el caso particular de esta controversia, así como reconocer la transformación que ha sufrido la misma durante los últimos años. En particular, se argumentará que dicha transformación puede conceptualizarse como un proceso de refocalización que incorpora nuevas perspectivas y dimensiones a la controversia original.
Labarca tem ainda publicado o artigo "La relación entre la química y la física: origen y vigencia de un espacio controversial", no livro Espacios controversiales. Hacia un modelo de cambio filosófico y científico (Miño y Dávila Editores, 2009), do filósofo chileno Oscar Nudler [o qual receberá, em breve, uma edição em língua inglesa publicado na série Controversies, editada por Marcelo Dascal].
A minha conclusão é a de que não podemos ter ainda tanta certeza assim de que a química seja uma ciência redutivel à física. Não tenho como explorar mais a fundo esta questão, além de indicar estas referências. Acredito assim que as certezas a respeito da redutibilidade da química pela física não possam ser tão categoricamente afirmadas e definitivamente garantidas. Isto é o que parece mostrar o abstract de Labarca. Contudo, maiores aprofundamentos são necessários (p.ex. ler outras publicações a este respeito, além do trabalho de Labarca, como o livro Of Minds and Molecules: New philosophical perspectives on chemistry editado por Bhushan e Rosenfeld (OUP, 2000).
Mas por que afinal é importante esta questão da redutibilidade química, para além da minha tentativa de apontar para a dúvida a respeito de sua certeza? Parece-me que este é apenas um dos exemplos possíveis a serem explorados contra as certezas do poder reducionista que a física supostamente apresentaria. Este pequeno exercício de dúvida poderá talvez se estender às tentativas de redução pela fíísica, além da química, também à biologia, à psicologia e (por que não) à linguística.