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domingo, 11 de maio de 2008

Autoridade Lingüística na Mídia

A Folha de São Paulo Online do dia 7 de maio publicou uma entrevista com o lingüísta Bruno Dalari (PUC/SP) falando sobre a língua hebraica:


Deixando de lado todos os lugares comuns e o tom eufórico veiculados na entrevista, características que acredito decorrer do gênero jornalístico de divulgação científica (e entrevista), e também não levando em consideração que uma argumentação muito exigente possa ser contraposta ao que ali é dito (já que o caráter despreocupado do gênero implica em que não se pode exigir rigor neste contexto) --além disso, o fato de que estou escrevendo em um blog, gênero que compartilha com a divulgação científica de jornal, uma certa informalidade-- gostaria de chamar a atenção para um único ponto que considero crucial em uma das respostas do lingüista. No que diz respeito à idéia de política lingüística como instrumento de controle do desenvolvimento de uma língua, o entrevistado afirma:

"Uma vez que uma língua é criada, ela ganha autonomia. Começa a mudar e não há o que fazer. Não há nenhuma política lingüística capaz de controlar esse processo espontâneo de mudança da língua".

Esta afirmação contraria a própria idéia de se poder "recriar", ou "reviver" uma língua. Afinal, se é possível reinserir uma língua em uso e "revivê-la", por que não seria possível controlar seu desenvolvimento? Esta idéia contraria até mesmo um dos pressupostos das teorias de política lingüística, isto é, o de que o desenvolvimento das línguas naturais (variação, mudança, etc.) são plenamente passíveis de serem controlados, com a utilização de determinadas estratégias de planejamento. O fato de não se conhecer os mecanismos de mudança lingüística, não significa que sejam irracionais, como sugere a afirmação citada acima. A idéia de que uma língua não pode ser modificada intencionalmente e que ela realiza uma trajetória completamente autônoma em seu "percurso de vida" é uma das heranças do estruturalismo que este não conseguiu eliminar da sua concepção de linguagem (langue, parole). Mesmo tendo sido pensado em contraposição àquele outro paradigma, digamos assim, vigente até o início do século xx que entendia as línguas naturais como um ser vivo. Ver por exemplo a crítica que faz Ferdinand de Saussure (Curso de Lingüística Geral) ao "naturalismo" lingüístico que alimentava esta idéia.

Apesar da aparente superação desta perspectiva, o naturalismo lingüístico ainda sobrevive, transformado em outras formas teóricas de naturalismo, como o inatismo gerativista e seus desdobramentos na chamada biolingüística. Mas este é um tema polêmico e que, entre outros efeitos, tem provocado debates a mais de um século, a respeito da ciência lingüística, afinal, que tipo de ciência é esta? Ciência natural, ou ciência social, (ou ambas) ainda perdura na lingüística e sobretudo na linguagem comum, como metáforas que atribuem às línguas naturais (mesmo nesta forma de denominação, "língua natural", em oposição às línguas artificiais, ou formais) este estatuto de algo "vivo", esta idéia ainda permanece. Veja-se por exemplo as expressões "língua morta", "língua viva", etc. várias delas presentes na entrevista que é objeto desta postagem.

Para aqueles que quiserem se informar melhor sobre a questão da língua hebraica, sua história e as implicações sociais do seu ressurgimento, existe uma bibliografia bastante grande. O livro "Hebrew and Zionism: A discourse analytic cultural study" (2001), de Ron Kuzar (Professor da Universidade de Haifa), explora estas questões (históricas e sociológicas) do ponto de vista da análise crítica do discurso. Visite a página do autor para um excerto do livro:


Para os interessados, vale a pena consultar o livro "Hebrew: The Eternal Language", de autoria de William Chomsky (pai do nosso conhecido lingüista) em que o autor desfaz vários dos mitos envolvidos na questão do "ressurgimento" do hebraico como língua falada, e entre eles alguns destes que são repetidos na entrevista aqui em questão:


Por último, gostaria de observar que a divulgação do conhecimento especializado (a chamada divulgação científica) precisa ser pautada por determinados critérios. Para isso, tanto o especialista quanto o órgão que divulga o conhecimento especializado precisam assumir um compromisso de responsabilidade. Recentemente tomei conhecimento de um caso em que um órgão de divulgação ligado a um centro acadêmico importante no país (na área das letras) publicou uma matéria a respeito de um trabalho de pesquisa, fazendo interpretações e estabelecendo conexões entre pesquisadores de maneira equivocada, sem que o autor da matéria de divulgação tivesse ao menos lido o produto final da investigação que divulgava, no caso uma tese. E o que é pior, fez isto sem o consentimento do pesquisador. Como resultado, promoveu a exposição do autor do trabalho de maneira prejudicial. A divulgação científica, como já disse, é um gênero de maior liberdade de expressão do conhecimento especializado, além disso ele possui uma função social importante, mas ele não precisa ser necessariamente ruim, ele pode ser de boa qualidade.

Os reveses da era da informação, ou, mídia por mídia...

[escrito originalmente em 1º de Maio de 2007]

Se você está escrevendo uma tese ou uma dissertação, se vai para a universidade dar e assistir aulas, lê textos difíceis e se esforça pra escrever alguma coisa que possa ser compreendida por um leitor mediano entre os seus pares, pare tudo, isso mesmo, não perca seu tempo. Quero me dirigir aqui principalmente aos professores, pesquisadores e alunos, formados e em formação, da área de letras (lingüística, principalmente). Não sei nem bem por onde começar a me desfazer desse sentimento angustiado que ler, ver ou ouvir "noticiário científico" em qualquer das mídias tem provocado em mim. Um jornalista disse: "Se a tese da Gramática Universal é correta –e acho que é–, somos todos lingüistas natos". (Hélio Schwartsman, Folha Online, 03/08/2006 http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u356184.shtml ) Ele disse isso depois de escrever um texto longo falando sobre os aspectos mais importantes em lingüística gerativa. Ele sabe quem é o Steven Pinker e o Jerry Fodor (o Chomsky não menciono porque este é figura mais do que conhecida), parece que lê seus livros e usa os termos, os conceitos e as idéias que estão nos livros deles; mais do que isso, ele assume aquilo que lê ali na sua vida prática, ele consegue “aplicar” o mentalismo lingüístico inatista na sua vida cotidiana. Muito bem. Bom pra ele, infelizmente não para a nossa (minha, principalmente) sensação de que somos (nós os especialistas, em formação ou não) os detentores deste, ou de algum conhecimento especializado em lingüística. Eis aí o preço da popularização, da divulgação do conhecimento. Estão todos ansiosos por tornarem-se conhecidos! E aqui não diferencio Everetts de Chomskys, etc. Dá tudo na mesma. Daniel Everett é um "aproveitador, fabricador da auto-imagem para fazer barulho nos meios de comunicação", como dizem seus inimigos? É, pode ser. E Chomsky é diferente? Qual a diferença entre eles? O último está no “mercado das idéias” há muito mais tempo. E é isso o que possibilita que jornalistas como aquele citado possam escrever matérias como a mencionada acima, e que o conhecimento especializado possa ser popularizado a ponto dele, o jornalista, adotá-lo como princípio para sua vida.

***

[um adendo em 11 de maio de 2008]:

Agora, vejam. É preciso ficar claro que não estou advogando qualquer espécie de exclusividade intelectual. A responsabilidade é de cada um, de fazer o que pode com o conhecimento que é produzido e está a disposição. Este tema é por si só polêmico, pois não estou querendo dizer que o conhecimento é neutro, ou que empresas ou estados podem usá-lo para quaisquer fins que os interessem, não. Acho que está bem claro. Me refiro à esfera do pessoal, individual. Se você consegue fazer uso prático de uma teoria lingüística que não tem a menor intenção de ser aplicável, problema é seu. O "frankenstein" é seu, cuide dele. E se você quiser também acreditar que somos todos lingüistas, idem. Tem muita coisa implícita nas afirmações do jornalista inteligente, autor da matéria a que me referi acima, que poderia ser argumentado, detalhado, respondido, corrigido, questionado, etc. Ele ficaria muito agradecido por poder aprender, etc. Mas não é este papel que estou representando aqui. Da mesma forma sou crítico da produção acadêmica hermética, esta mesma que se eu quiser participar do meio me impõe saber manipulá-la. Tudo bem, problema é meu. Acho que o jornalista e o acadêmico têm seu lugar, ambos podem falar do que quiser. Mas meu papel é outro, nem facilitador (como o jornalista feliz com a linguística gerativa) nem hermeneuta profissional (como os acadêmicos universitários).

Diálogo

--Mas enquanto um intelectual, um erudito, um homem de letras você deve argumentar para desfazer as confusões que estão postas em todas estas teorias.
--Argumentar para desfazer confusões? Acredito em outro critério de elucidação: fechar a boca e evitar a inflação da tagarelice em circulação no mercado das idéias.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Revista "Controvérsia"

A revista virtual Controvérsia do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos publica trabalhos dos alunos do programa. Eis a apresentação da revista na sua página:

"Espaço aberto para a produção intelectual inscrito no campo da filosofia ligado à pesquisa científica em que se tratará de problemas vinculados de alguma maneira à área de concentração do PPG Filosofia qual seja Ética e Filosofia Social, e as suas linhas de pesquisa: 1 - Sistemas Éticos, 2 - Linguagem, racionalidade e o discurso da ciência e 3 - Filosofia Social e Política."

O link para a publicação online é este: http://www.controversia.unisinos.br/

Uma boa opção: The Soft Articles Directory

Nesta página bastante interessante (Soft Articles Directory) vc pode encontrar pequenos artigos de boa qualidade. O banco de dados ainda é pequeno mas econtrei ali três pequenos artigos sobre a teoria das controvérsias:

1. What Are Scientific Controversies? [O Que São Controvérsias Científicas?]
http://www.softarticles.info/What-Are-Scientific-Controversies/

2. Why Scientific Controversies Exist? [Por Que Existem Controvérsias Científicas?]
http://www.softarticles.info/Why-Scientific-Controversies-Exist/

3. Kinds of Scientific Controversies [Tipos de Controvérsias Científicas]
http://www.softarticles.info/Kinds-of-Scientific-Controversies/

Todos os três artigos são de autoria de Alistair Larouge e foram submetidos todos no mês de abril/2008. Em seguida devo comentar os artigos aqui numa próxima postagem. Boa Leitura!

**Após retornar a este poste [agosto/2009] e testar os links, verifiquei que os artigos aqui mencionados infelizmente não estão mais disponíveis. Se algum leitor deste blog [existe algum, além de mim mesmo?] tiver alguma notícia do paradeiro dos artigos ou de seu autor [que também não foi localizado], por favor deixe um comentário indicando a localização. Na busca pelos artigos, que poderiam ter sido movidos a outro local na internet, encontrei algumas outras publicações, de variado nível de elaboração, as quais disponibilizo os links em uma postagem mais acima, com a data de hoje 20/ago/2009.**