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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Uma controvérsia em Estudos da Tradução?


[I]
O texto de W. Benjamin sobre tradução, "A Tarefa do Tradutor", é tido em alta conta pela intelligentsia acadêmica na área da tradução. A tradução de Susana Kampff Lages sobre o texto de Benjamin acrescenta um outro termo ao título, combinando 'tarefa' com 'renúncia'. Não sei bem ao certo, pois não consigo perceber, por que motivo a tradutora traduziu o título do artigo por "A Tarefa-Renúncia do Tradutor". Talvez ela tenha feito isso pelo fato do termo 'Aufgabe', no original em alemão, permitir essa variação e a tradutora pretendeu ampliar o significado do termo 'tarefa' na sua versão para o português. E esta ideia parece se confirmar, pois uma olhada rapida em um dicionário on line traz o seguinte conjunto de termos, nesta sequência, para o termo em alemão: tarefa, trabalho, missão, função, renúncia, abandono. Eu gostaria que fosse possível incluir mais um termo nesta lista: 'compromisso'. Isso talvez não seja possível, aproximar 'compromisso' de 'Aufgabe'. Não tenho condições de, neste momento, ler toda a (nem mesmo parte da) crítica e todas as (nem mesmo algumas das) traduções que poderia ler do texto de Benjamin para verificar se o que ele argumenta em seu artigo permitiria, ou não, a aproximação de 'Aufgabe' a 'compromisso'.

Sei que circula no senso-comum acadêmico (já ouvi isso de mais de uma pessoa) a avaliação de que, na história e historiografia (dos estudos) da tradução,  o mencionado artigo de Benjamin está (em importância e relevância [?] para a reflexão sobre a tradução) para o século xx, assim como o famoso texto de Schleiermacher, "Sobre os diferentes métodos de tradução", está para o século XIX. Confesso que me escapa qual seria o valor que esta frase de efeito, proferida por uma autoridade (não sei dizer, agora, exatamente quem foi o autor, Berman [?]) na área da tradução, poderia ter em termos epistemológicos para o conhecimento positivo sobre o fenômeno da tradução. Epistemologicamente ela não me parece ter muito valor. O que consigo discernir desta frase é que apesar dela ter sido aparentemente elaborada na forma de uma razão em que 'b' (Benjamin) está para 'v' (séc. [v]inte), assim como 's' (Schleiermacher) está para 'd' (séc. [d]ezenove), o que ela de fato realiza é um argumento na forma 'ad verecundiam' (ou, argumento de autoridade). Isto quer dizer que o valor (ou significado) da afirmação se fundamenta na autoridade de seu autor (e neste caso temos pelo menos três importantes autoridades em questão). Um argumento de autoridade possui geralmente a forma: o autor 'A' afirma 'B'; 'A' está sujeito a ser reconhecido como autoridade em um determinado campo do conhecimento; portanto 'B' é verdade (ou tem grande chance de ser). Tradicionalmente, este tipo de argumento é classificado como uma falácia lógica, porém prefiro não chamá-lo assim, para não incorrer no sentido que a lógica dialética tradicional atribui às falácias, isto é, o sentido de 'erro lógico'. Prefiro um outro sentido atribuído, contemporaneamente, às falácias. Refiro-me ao sentido da lógica informal e de várias correntes da teoria da argumentação em que uma falácia, mais do que ser um erro lógico (uma função puramente formal) possui a função de persuadir (e nisto encontra seu valor). Quem de nós não nos deixaríamos levar por algum argumento de autoridade, principalmente quando ele parece confirmar uma crença que queremos manter?

E aqui volto à ideia de 'comprometimento' que mencionei acima. É inegável o valor das ideias de Benjamin e de Schleiermacher para a reflexão sobre a tradução, e acredito que também o seja o de Berman. Mas o fato de Berman (uma autoridade) enunciar uma frase de efeito sobre outras autoridades, não torna o seu argumento verdadeiro e, curiosamente, também não o torna inválido. No entanto, isto não significa que seja preciso acreditar que o que todas estas autoridades afirmam possuem algum valor de verdade instrínseco que é preciso encontrar, seja onde for, estejamos quando e onde estivermos (isto é, universal). É neste ponto que eu gostaria de chegar trazendo junto comigo a ideia de 'compromisso'. Qual é o compromisso do tradutor? São vários os compromissos do tradutor: éticos, morais (incluindo os de autoridade), textuais, linguísticos, teóricos, racionais, epistêmicos, cognitivos, sociológicos, estéticos, etc. Dentre estes encontra-se o compromisso de suspender a adesão a uma crença (um valor, um significado) quando ela parece não refletir uma  hipótese plausível o suficiente a respeito de um determinado acontecimento, fato ou objeto no mundo. A afirmação de Berman (tomada assim, descontextualizadamente), apesar de válida, é um exemplo que nos obriga a suspender a adesão a sua plausibilidade. É fácil de perceber isso: admitindo ou negando sua plausibilidade, pouco se modifica o efeito persuasivo que ela possui. Por isso a chamei de frase de efeito. Ela pode ser verdadeira e válida, porém, pode também ser falseada, e aí se encontra sua força.

[II]
E como poderia ser falseado este argumento de Berman? Por exemplo, ou questionando a relação que ele parece querer estabelecer entre o pensamento de Benjamin com o de Schleiermacher; ou, então, questionando a proporção incial que afirma a importância do artigo de Benjamin para o século XX. As duas linhas de questionamento estão relacionadas, farei a tentativa de mostrar como poderiam ser questionadas conjuntamente. Sem entrar nos méritos e no conteúdo dos dois textos dos dois autores é praticamente impossível de se apresentar uma análise minimamente plausível. No entanto, irei arriscar não fazer isso e limitando a uma passagem muito pequena do texto de Benjamin.
[...]

[**Continua ]

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