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domingo, 11 de maio de 2008

Os reveses da era da informação, ou, mídia por mídia...

[escrito originalmente em 1º de Maio de 2007]

Se você está escrevendo uma tese ou uma dissertação, se vai para a universidade dar e assistir aulas, lê textos difíceis e se esforça pra escrever alguma coisa que possa ser compreendida por um leitor mediano entre os seus pares, pare tudo, isso mesmo, não perca seu tempo. Quero me dirigir aqui principalmente aos professores, pesquisadores e alunos, formados e em formação, da área de letras (lingüística, principalmente). Não sei nem bem por onde começar a me desfazer desse sentimento angustiado que ler, ver ou ouvir "noticiário científico" em qualquer das mídias tem provocado em mim. Um jornalista disse: "Se a tese da Gramática Universal é correta –e acho que é–, somos todos lingüistas natos". (Hélio Schwartsman, Folha Online, 03/08/2006 http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u356184.shtml ) Ele disse isso depois de escrever um texto longo falando sobre os aspectos mais importantes em lingüística gerativa. Ele sabe quem é o Steven Pinker e o Jerry Fodor (o Chomsky não menciono porque este é figura mais do que conhecida), parece que lê seus livros e usa os termos, os conceitos e as idéias que estão nos livros deles; mais do que isso, ele assume aquilo que lê ali na sua vida prática, ele consegue “aplicar” o mentalismo lingüístico inatista na sua vida cotidiana. Muito bem. Bom pra ele, infelizmente não para a nossa (minha, principalmente) sensação de que somos (nós os especialistas, em formação ou não) os detentores deste, ou de algum conhecimento especializado em lingüística. Eis aí o preço da popularização, da divulgação do conhecimento. Estão todos ansiosos por tornarem-se conhecidos! E aqui não diferencio Everetts de Chomskys, etc. Dá tudo na mesma. Daniel Everett é um "aproveitador, fabricador da auto-imagem para fazer barulho nos meios de comunicação", como dizem seus inimigos? É, pode ser. E Chomsky é diferente? Qual a diferença entre eles? O último está no “mercado das idéias” há muito mais tempo. E é isso o que possibilita que jornalistas como aquele citado possam escrever matérias como a mencionada acima, e que o conhecimento especializado possa ser popularizado a ponto dele, o jornalista, adotá-lo como princípio para sua vida.

***

[um adendo em 11 de maio de 2008]:

Agora, vejam. É preciso ficar claro que não estou advogando qualquer espécie de exclusividade intelectual. A responsabilidade é de cada um, de fazer o que pode com o conhecimento que é produzido e está a disposição. Este tema é por si só polêmico, pois não estou querendo dizer que o conhecimento é neutro, ou que empresas ou estados podem usá-lo para quaisquer fins que os interessem, não. Acho que está bem claro. Me refiro à esfera do pessoal, individual. Se você consegue fazer uso prático de uma teoria lingüística que não tem a menor intenção de ser aplicável, problema é seu. O "frankenstein" é seu, cuide dele. E se você quiser também acreditar que somos todos lingüistas, idem. Tem muita coisa implícita nas afirmações do jornalista inteligente, autor da matéria a que me referi acima, que poderia ser argumentado, detalhado, respondido, corrigido, questionado, etc. Ele ficaria muito agradecido por poder aprender, etc. Mas não é este papel que estou representando aqui. Da mesma forma sou crítico da produção acadêmica hermética, esta mesma que se eu quiser participar do meio me impõe saber manipulá-la. Tudo bem, problema é meu. Acho que o jornalista e o acadêmico têm seu lugar, ambos podem falar do que quiser. Mas meu papel é outro, nem facilitador (como o jornalista feliz com a linguística gerativa) nem hermeneuta profissional (como os acadêmicos universitários).

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