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quinta-feira, 10 de maio de 2007

McCawley, J. D. (1981), "E.t.L.H.A.W.t.K.a.L." (b.w.a.t.a.), 508 pp.

Em uma conversa transatlântica com R. Pan, combinamos de debater via virtual um pouco de lógica, a partir desta obra do lingüista J. D. McCawley, "Everything that Linguists Have Always Wanted to Know about Logic (but were ashamed to ask). Sendo um filósofo por formação, ele (Pan) já possui um histórico com alguns cursos em lógica, coisa que eu enquanto formado em letras não tive a oportunidade de entrar em contato, por motivos que aqui não compensa discorrer. Mas atualmente nos encontramos os dois no estágio de formação em que poderíamos nos referir por 'lingüistas' e, por algum motivo, tomamos a decisão de estudar esta referência, resolvemos ler este livro juntos, ele lá em Porto (Portugal) e eu aqui em Curitiba (Brasil).

O autor em questão é conhecido do meio lingüístico principalmente pelo seu envolvimento com a corrente gerativista da lingüística estadunidense, e seu nome é associado ao movimento "dissidente" da semântica gerativa. Uma breve olhada pelo livro e se percebe que o autor é dado a "originalidades" na elaboração de seus exemplos (p. ex. "All linguists are insane, and some linguists are not insane", p. 1) e também no uso de nomes (Nixon, Mao, Brezhnev). Já vi em algum lugar a referência ao fato e a indicação de que a tal "revolução" da semântica gerativa constituía-se apenas neste tipo de exemplificação "engraçada". Não acredito nisto e entender o movimento da semântica gerativa faz parte (enquanto uma das polêmicas do gerativismo) do meu projeto de tese. Mas, verdade ou não, o próprio título do livro e a leitura do prefácio deixa transparecer alguma coisa deste sentimento. Paródia com o título do conhecido filme do Woody Allen (Everything You Always Wanted to Know About Sex [But Were Afraid to Ask]) o título do livro parece querer justificar sua intenção de se constituir como uma reflexão em lógica especificamente para lingüistas. Não que o título contenha algo de interesse lingüístico, poderia até ter, para um analista do discurso, semiólogo ou semioticista aplicado (repare, por exemplo, na diferença entre o 'afraid' no título do filme e o 'ashamed' no título do livro), mas, em sua peculiaridade, aponta para o interesse particular que a obra busca ressaltar: é uma reflexão em lógica para lingüistas.

A leitura do prefácio também ressalta essa característica alegórica e imaginativa do autor. Vejamos primeiro o conteúdo da publicação a partir de seu sumário. Composto por catorze capítulos, o livro aborda questões que normalmente não se encontrariam em cursos introdutórios em lógica: seções relacionadas aos campos da semântica e da sintaxe (caps. 2, 3, 4 e 6), atos de fala e implicaturas (cap. 8), pressuposições (cap. 9), mundos possíveis (cap. 11) e gramática de Montague (cap. 13).

Lendo o Prefácio. A idiossincrasia autoral surge já na primeira sentença: "Eu realmente não queria escrever este livro" (p. ix). Afirmando que não teria como se livrar da tarefa de fazê-lo, e mencionando vários textbooks que considera importantes conclui que sua tarefa seria a de fornecer um volume voltado especificamente para lingüistas que fazem cursos em lógica: "(...)nenhum deles satisfazia muito bem minha idéia daquilo que um curso em lógica deveria fornecer a lingüistas (...) rico em análises de exemplos em língua natural lingüisticamente interessantes" (id.). Sua intenção, afirma, seria conseguir "mostrar ao lingüista o interesse da análise lógica e os motivos que levam os lógicos a fazer certas coisas que podem parecer perversas aos lingüistas". Para o autor, apenas fornecer exemplos paralelos a um curso tradicional em lógica não satisfaria a necessidade de livrar os lingüistas da exasperação em que se encontram diante de um curso deste tipo e por isso decidiu então por elaborar o seu próprio volume com o objetivo de satisfazer esta necessidade.

O estudo do conteúdo voltado para lingüistas, afirma o autor, pressupões certa familiaridade com temas básicos da sintaxe da gramática transformacional. Ele espera que o volume possa servir para o estudo individual (sem mestre), apesar de não ter sido testado sob estas condições (p. x). Enumera então quatro resultados que se poderá esperar obter a partir do estudo da obra: i. treinamento da capacidade semântica de interpretação relacionada a questões lógicas que poderão fornecer percepções específicas em relação à significação de exemplos lingüísticos; ii. conscientização de problemas da relação entre questões lingüísticas e filosóficas, como a da referência; iii. desenvolvimento da percepção da distinção entre problemas da lógica formal padrão que valem ser considerados e aqueles que aparecem como arbitrariedades dos trabalhos da tradição lógica, assim como a percepção que tais arbitrariedades não precisam ser necessariamente aceitas. Neste ponto, chama a atenção para o fato de que o lingüista em formação deve ter esta mesma atitude em geral para com outros campos de sua formação, e menciona o treinamento em análise sintática como caso; por último, iv. pensa em contribuir para a construção da mentalidade que vê na lógica o lugar em que se pode buscar um instrumento que satisfaça necessidades específicas sem que precise ser seguida como um dogma, e cita uma passagem do anarquista russo Bakunin que soa bastante interessante: a atitude sugerida implica na rejeição de toda e qualquer autoridade? De modo algum. O conhecimento a partir da autoridade deve ser compreedido como relativo ao seu domínio de conhecimento e ele não está, por isso, autorizado a impor este seu conhecimento. Pode-se ouvir livremente o que o especialista tem a dizer sem por isso se perder o direito em aceitar ou não este seu saber. Um único especialista em um determinado campo não deveria satisfazer a necessidade de se conhecer determinada matéria, mas sim a consulta a vários. A adoção de um conhecimento a partir da experiência de um outro pode ser fatal para a racionalidade de uma mente inquiridora. [Aqui me permito um comentário a respeito desta postura que me parece muito aproximada daquela de um cético, no sentido da tradição grega, que ao mesmo tempo não autoriza nem desautoriza um afirmação pelo simples fato de partir de um especialista ou de representar a experiência de um indivíduo ou grupo em específico.]

O autor espera que o estudo de sua obra venha a ter conseqüências para questões e problemas que levam para além dos problemas da lógica. Por exemplo, a filosofia da ciência. O papel da contradição na teoria da ciência de Popper, em que não há lugar para a contradição lógica pois esta eliminaria de todo a possibilidade da atividade científica. Para Anderson e Belnap (1975) a contradição lógica não impossibilitaria de todo a atividade científica mas transformaria a condição de crises na ciência para a condição de problemas, idênticos a qualquer outro tipo de problema encontrado por uma comunidade de investigação. Aqui o autor menciona Laudan (1976) para uma discussão sobre a noção de 'problema' na ciência. Esta transformação está condicionada à discussão de Anderson e Belnap sobre o que se denomina por entailment logic.

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